
Uma das partes mais difíceis de escrever um romance pode ser justamente a primeira página.
Você tem uma história inteira na cabeça. Sabe quem são os personagens, imagina cenas que vão acontecer mais para frente, talvez até já saiba como a história termina.
Mas chega a hora de escrever:
“Capítulo 1”
E você não sabe o que colocar depois.
Eu já passei por esse momento algumas vezes. E uma coisa que aprendi é que começar um romance não significa explicar tudo.
A primeira página não precisa apresentar o mundo inteiro, contar o passado do protagonista e explicar qual será o conflito da história.
Ela precisa fazer o leitor querer ler a próxima.
Você não precisa começar pelo começo da vida do personagem
Um erro comum é imaginar que a história precisa começar no momento mais antigo da cronologia.
Se a protagonista nasceu em 2002, não precisamos começar em 2002.
Se ela conheceu o namorado aos quinze anos, talvez também não seja necessário começar no primeiro encontro.
O romance pode começar muito depois.
Pode começar no dia em que alguma coisa muda.
No dia em que ela recebe uma notícia.
Quando alguém volta para a cidade.
Quando encontra uma pessoa que não via há anos.
Quando descobre um segredo.
Quando comete um erro.
Quando decide fazer alguma coisa que vai mudar sua vida.
O começo da história não precisa ser o começo da vida do personagem.
É o começo do problema que queremos acompanhar.
Comece quando alguma coisa estiver acontecendo
Isso não significa que a primeira cena precisa ter uma perseguição, uma explosão ou alguém gritando.
Uma história pode começar com uma situação aparentemente simples.
Uma mulher arrumando uma mala.
Um homem esperando um ônibus.
Uma família reunida para jantar.
Uma estudante chegando atrasada à universidade.
Uma pessoa entrando em uma casa que não visitava há anos.
O importante é que exista alguma coisa acontecendo por trás daquela situação.
Imagine:
“Marina acordou às sete da manhã. Escovou os dentes, tomou banho e tomou café.”
Nada necessariamente está errado.
Mas ainda não existe uma razão forte para continuar.
Agora imagine:
“Marina acordou às sete da manhã com alguém batendo na porta do apartamento. O problema era que ela morava sozinha havia três anos.”
A situação é simples.
Mas existe uma pergunta.
Quem está batendo?
Por que isso é estranho?
O que aconteceu nesses três anos?
A pergunta cria movimento.
Crie uma pergunta
Uma boa abertura costuma fazer o leitor perguntar alguma coisa.
Não precisa ser um mistério gigantesco.
Pode ser uma pergunta pequena:
Por que ele está indo embora?
Por que ela está mentindo?
Quem deixou aquela carta?
O que aconteceu naquela noite?
Por que ninguém fala sobre aquela casa?
Por que os dois não se veem há dez anos?
A pergunta pode ser respondida algumas páginas depois.
E tudo bem.
Na verdade, uma das funções do começo é criar curiosidade suficiente para que o leitor queira descobrir a resposta.
Não explique o mundo inteiro logo de cara
Quando estamos muito envolvidos com uma história, sabemos muito mais sobre ela do que o leitor.
Sabemos a história da família.
Sabemos o passado dos personagens.
Sabemos como funciona aquele universo.
Sabemos por que determinada cidade é importante.
Sabemos o significado daquele objeto.
E existe uma vontade enorme de contar tudo.
Eu tentaria resistir.
O leitor não precisa receber todas essas informações na primeira página.
Se existe uma informação importante, pergunte:
“Eu realmente preciso contar isso agora?”
Talvez não.
Às vezes é melhor deixar o leitor descobrir.
Apresente o personagem através de uma situação
Em vez de começar explicando quem é o protagonista, tente colocá-lo diante de alguma coisa.
Por exemplo:
“João era um homem tímido, solitário e muito desconfiado.”
Isso informa algumas características.
Mas podemos mostrar:
“João viu a mulher sentar ao seu lado no ônibus e imediatamente mudou de lugar.”
Agora temos uma ação.
E podemos começar a imaginar quem é João.
Talvez ele seja apenas antissocial.
Talvez esteja fugindo de alguém.
Talvez tenha medo de desconhecidos.
Talvez tenha alguma razão específica para não querer contato.
A história pode revelar isso depois.
O leitor não precisa gostar do protagonista imediatamente
Também não acho que seja necessário transformar o protagonista em uma pessoa extremamente simpática na primeira página.
Ele pode ser irritante.
Pode estar cometendo um erro.
Pode tomar uma decisão questionável.
Pode ser egoísta.
Pode estar mentindo.
O mais importante é despertar interesse.
Eu posso não gostar de uma personagem, mas ainda querer saber o que vai acontecer com ela.
Isso já é suficiente para continuar lendo.
Comece com uma mudança
Uma técnica que gosto bastante é começar pouco antes ou durante uma mudança.
A vida do personagem estava de determinada maneira.
Então alguma coisa acontece.
Pode ser enorme ou pequena.
Uma mensagem.
Uma ligação.
Uma visita.
Uma demissão.
Uma morte.
Um reencontro.
Uma oportunidade.
Uma descoberta.
A mudança cria uma espécie de antes e depois.
E o leitor quer descobrir o que vem depois.
O conflito não precisa aparecer inteiro
Você não precisa apresentar o grande conflito do romance imediatamente.
Imagine que seu romance vai acompanhar uma mulher que descobre um segredo terrível sobre a própria família.
Você não precisa escrever na primeira página:
“Clara ainda não sabia que descobriria um segredo sobre sua família que mudaria sua vida para sempre.”
Esse tipo de frase entrega ao leitor aquilo que deveria ser descoberto pela história.
Talvez seja melhor mostrar Clara encontrando uma fotografia antiga.
Na fotografia, existe uma pessoa que ninguém da família menciona.
Ela pergunta quem é.
Ninguém responde.
Pronto.
Agora temos uma pequena rachadura na história.
Cuidado com o prólogo
Eu gosto de prólogos quando existe uma razão real para eles existirem.
O problema é quando usamos um prólogo apenas porque não sabemos como começar o primeiro capítulo.
Se o prólogo mostra um acontecimento importante e depois a história volta vinte anos, pode funcionar.
Se ele existe apenas para explicar o passado, talvez seja possível encontrar uma maneira mais interessante de colocar essas informações na narrativa.
Antes de escrever um prólogo, eu perguntaria:
“Essa cena precisa realmente estar separada do capítulo 1?”
Se a resposta for não, talvez ela possa ser incorporada à história.
Não comece tentando impressionar
Existe uma pressão enorme para escrever uma primeira frase brilhante.
Às vezes isso ajuda.
Mas também pode atrapalhar.
Você pode passar duas horas tentando criar uma frase perfeita e esquecer que precisa contar uma história.
A primeira frase não precisa ser uma obra-prima isolada.
Ela precisa funcionar junto com o que vem depois.
Uma frase simples pode ser muito mais eficiente do que uma frase cheia de metáforas que não leva a lugar nenhum.
Primeiro faça a história andar.
Depois você pode voltar e trabalhar a linguagem.
Comece com a voz da história
Nem todo romance precisa começar com ação.
Alguns funcionam justamente porque a voz narrativa é interessante.
Uma narradora com uma maneira particular de observar o mundo pode prender o leitor mesmo descrevendo uma situação aparentemente comum.
Por exemplo, uma personagem pode estar esperando um trem, mas a maneira como ela pensa sobre aquele lugar já revela sua personalidade.
Nesse caso, o que prende não é necessariamente o acontecimento.
É a voz.
Por isso, também vale perguntar:
“Quem está contando essa história?”
E:
“Por que eu quero ouvir essa pessoa?”
O primeiro capítulo precisa prometer alguma coisa
Quando termino o primeiro capítulo, gosto de pensar no que ele prometeu ao leitor.
Talvez seja um romance.
Um mistério.
Uma história familiar.
Uma transformação.
Uma investigação.
Uma tragédia.
Um conflito.
Uma viagem.
Uma história de amadurecimento.
Não significa que tudo precisa estar explicado.
Mas o leitor precisa começar a entender que tipo de experiência está entrando.
Se você apresenta uma história como romance policial e passa cinquenta páginas sem qualquer sinal do mistério, talvez exista um problema de expectativa.
A abertura estabelece um contrato com o leitor.
Não coloque toda a história no primeiro capítulo
Outro erro comum é tentar fazer o primeiro capítulo carregar o peso do romance inteiro.
Apresentar todos os personagens.
Explicar o passado.
Mostrar o conflito.
Explicar o mundo.
Criar o romance.
Introduzir o vilão.
Contar o segredo.
E terminar com um grande gancho.
Às vezes, menos é mais.
O primeiro capítulo pode simplesmente apresentar uma situação que abre uma porta.
Você não precisa atravessar todas as portas no mesmo momento.
Faça o teste da primeira página
Depois de escrever, eu faria uma coisa simples.
Leia apenas a primeira página.
Depois pergunte:
Eu sei quem está aqui?
Existe alguma situação acontecendo?
Existe alguma coisa que desperte curiosidade?
A voz da narrativa aparece?
Existe alguma informação desnecessária?
Estou explicando demais?
O personagem está fazendo alguma coisa ou apenas pensando?
Eu continuaria lendo se não soubesse quem escreveu?
Essa última pergunta pode ser desconfortável, mas é útil.
Se a resposta for não, não significa que o romance está ruim.
Significa apenas que talvez a abertura ainda não esteja encontrando a melhor forma de apresentar a história.
Uma estrutura simples para começar
Se você estiver completamente travado, pode experimentar uma estrutura muito simples:
Primeiro, apresente o personagem em uma situação concreta.
Depois, introduza alguma coisa que interrompa a normalidade.
Em seguida, deixe aparecer uma pergunta ou problema.
Por fim, termine a cena com alguma mudança.
Por exemplo:
Uma mulher volta para sua cidade natal.
Ela entra na antiga casa da família.
Encontra um quarto que deveria estar vazio.
Dentro dele existe um objeto que pertence à irmã desaparecida.
Agora ela precisa decidir o que fazer.
Não precisamos explicar a vida inteira dessa mulher.
Temos uma situação.
Temos uma pergunta.
E temos um motivo para continuar.
E se eu não souber como a história começa?
Nesse caso, comece pelo meio.
Escreva a cena que você está mais animada para escrever.
Pode ser o encontro entre os protagonistas.
Pode ser a morte de alguém.
Pode ser a descoberta do segredo.
Pode ser a grande discussão.
Pode ser o final.
Não existe uma regra dizendo que você precisa escrever o romance na ordem em que o leitor vai encontrá-lo.
Às vezes a história começa a fazer sentido depois que escrevemos as cenas que estavam mais claras na nossa cabeça.
Depois você pode voltar e descobrir qual é realmente o melhor começo.
O começo perfeito pode ser descoberto na revisão
Essa é uma coisa que acho importante lembrar.
O primeiro capítulo que você escreve não precisa ser o primeiro capítulo definitivo.
Talvez você escreva vinte páginas e perceba que a história começa muito antes.
Ou muito depois.
Talvez o capítulo 1 que parecia necessário fique completamente desnecessário.
Talvez uma cena que você escreveu no capítulo 5 seja, na verdade, uma abertura muito melhor.
Isso não significa que você fracassou.
Significa que você descobriu mais sobre a própria história enquanto escrevia.
Às vezes, só conseguimos encontrar o começo depois de escrever o resto.
Começar é abrir uma porta
Para mim, começar um romance não é despejar todas as informações que o leitor precisa saber.
É abrir uma porta.
Mostrar quem está do outro lado.
Deixar alguma coisa estranha, interessante ou importante acontecendo.
E fazer o leitor pensar:
“Eu quero saber o que acontece agora.”
Você não precisa explicar tudo.
Não precisa escrever a frase mais bonita da literatura.
Não precisa começar com uma explosão.
Precisa apenas encontrar o ponto em que a história começa a se mover.
E, depois disso, continuar.
Referências
ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Editora 34, 2015.
ECO, Umberto. Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. São Paulo: Perspectiva, 2004.
FORSTER, E. M. Aspects of the Novel. London: Edward Arnold, 1927.
GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. Lisboa: Vega, 1995.
MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiros. Curitiba: Arte & Letra, 2006.
PROPP, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
TODOROV, Tzvetan. Poética da prosa. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


