As pinturas rupestres eram realmente feitas por homens?

Discover ancient rock art depicting prehistoric life on Algerian cave walls.

Durante muito tempo, quando eu imaginava um artista pré-histórico, a imagem que aparecia na minha cabeça era bastante específica: um homem, provavelmente forte, coberto de peles, segurando um pedaço de carvão ou pigmento e desenhando um animal na parede de uma caverna.

Essa imagem parece tão natural que quase nunca paramos para questioná-la.

Mas existe um problema:

como sabemos que eram homens?

A verdade é que, durante muito tempo, simplesmente presumimos isso.

E essa é uma questão muito interessante dentro da História da Arte, porque estudar a arte pré-histórica significa lidar constantemente com aquilo que sabemos, aquilo que podemos deduzir e aquilo que simplesmente imaginamos.

Hoje, algumas pesquisas sugerem que mulheres participaram da produção de arte rupestre — e, em determinados conjuntos de marcas, podem ter sido responsáveis por uma parcela significativa delas.

Mas isso não significa que toda arte rupestre tenha sido feita por mulheres.

Também não significa que os homens não fossem artistas.

O que a pesquisa está mostrando é algo muito mais interessante:

a ideia de que o artista pré-histórico era necessariamente um homem não tem sustentação suficiente.


De onde veio a ideia de que os artistas eram homens?

Para entender essa questão, precisamos pensar na maneira como a Pré-História foi imaginada durante muito tempo.

Grande parte das interpretações tradicionais foi construída a partir de uma visão bastante masculina das sociedades pré-históricas.

O homem era frequentemente associado à caça.

A mulher era associada à coleta, à maternidade e ao espaço doméstico.

Consequentemente, quando os pesquisadores encontravam representações de animais nas cavernas, era tentador imaginar que aqueles mesmos homens responsáveis pela caça também fossem os responsáveis pela arte.

A lógica parecia simples:

homens caçavam → homens conheciam os animais → homens pintavam os animais.

Mas o problema é que uma hipótese construída dessa maneira não é uma evidência.

Nós não podemos determinar quem produziu uma pintura simplesmente porque imaginamos que determinada atividade pertencia a homens.

E é justamente aí que a arqueologia começou a encontrar algumas pistas interessantes.


As mãos podem revelar quem estava ali

Entre os vestígios mais fascinantes da arte rupestre estão as chamadas mãos em negativo, ou estênceis de mão.

A técnica é relativamente simples de imaginar.

A pessoa colocava a mão contra a parede da caverna e soprava pigmento ao redor dela.

Quando retirava a mão, ficava na parede a sua silhueta.

É praticamente uma assinatura corporal.

Não é um retrato do rosto.

Não sabemos necessariamente o nome da pessoa.

Não sabemos sua história.

Mas temos uma marca física deixada por alguém que esteve naquele lugar milhares de anos atrás.

E é justamente essa característica que torna essas imagens tão valiosas para os pesquisadores.

Uma pintura de um cavalo não nos permite identificar diretamente quem segurou o pigmento.

Uma mão, pelo menos em determinadas condições, pode fornecer informações sobre o próprio corpo do indivíduo.

Pesquisadores passaram a analisar medidas e características das mãos para tentar estimar idade e sexo biológico dos indivíduos que produziram algumas dessas marcas.


E foi aí que apareceu uma surpresa

Um dos estudos mais conhecidos nessa discussão foi realizado pelo arqueólogo Dean Snow.

Ao analisar estênceis de mãos de cavernas da França e da Espanha, Snow utilizou características morfológicas das mãos para estimar o sexo de seus autores.

Em uma pesquisa inicial, seis estênceis foram atribuídos a quatro mulheres adultas, um homem adulto e um homem subadulto.

Em trabalho posterior, a amostra analisada foi ampliada para 32 casos mensuráveis, e o autor concluiu que os indivíduos responsáveis por aqueles estênceis eram predominantemente mulheres. O estudo foi apresentado justamente como uma contestação à antiga suposição de que os estênceis de mãos da arte rupestre europeia fossem produzidos principalmente por homens.

Isso muda completamente a maneira como podemos imaginar aquela cena.

A pessoa que soprava o pigmento sobre a mão poderia ser uma mulher.

E talvez não fosse uma exceção.


Mas existe uma ressalva importante

Aqui eu acho que precisamos tomar cuidado.

É tentador transformar essa descoberta em uma manchete como:

“As mulheres foram as verdadeiras artistas da Pré-História.”

Mas a ciência não permite uma conclusão tão simples.

A identificação do sexo a partir de mãos pré-históricas possui limitações.

O tamanho das mãos varia entre indivíduos, existe sobreposição entre homens e mulheres e a maneira como a mão foi posicionada e como o pigmento foi aplicado pode alterar a aparência da marca.

Pesquisas mais recentes continuam justamente tentando aperfeiçoar esses métodos. Um estudo publicado em Scientific Reports em 2024 destacou que determinar sexo e idade a partir dos estênceis é uma tarefa desafiadora e investigou o uso da morfometria geométrica como ferramenta complementar.

Ou seja:

uma mão na parede não vem acompanhada de uma carteira de identidade.

Precisamos trabalhar com probabilidades, métodos e margens de incerteza.


A pesquisa mais recente deixa a história ainda mais interessante

E aqui está uma atualização importante para quem pesquisa o assunto hoje.

Um estudo publicado em 2026 no Cambridge Archaeological Journal revisitou o fenômeno das representações de mãos no Paleolítico Superior europeu.

Os pesquisadores analisaram 124 estênceis de mãos em nove cavernas da Península Ibérica utilizando uma abordagem que combina aspectos biológicos, tecnológicos, espaciais e culturais.

O resultado apontou para uma participação relativamente ampla: crianças, homens e mulheres aparecem como possíveis participantes da produção dessas representações. Os autores interpretam isso como um indício de que a produção de arte rupestre poderia envolver diferentes segmentos das comunidades paleolíticas.

Isso é muito mais interessante do que simplesmente trocar “homem” por “mulher”.

Porque talvez a questão esteja errada.

Talvez não devêssemos perguntar:

“Os homens ou as mulheres faziam arte?”

Talvez devêssemos perguntar:

“Quem participava das práticas de produção de imagens nessas sociedades?”


E as crianças?

Essa é outra possibilidade que costuma ser esquecida.

Quando imaginamos arte pré-histórica, geralmente pensamos em um adulto produzindo cuidadosamente uma obra.

Mas as pesquisas sobre mãos mostram que crianças também podem ter participado dessas práticas.

Isso é importante porque muda a ideia de que a arte rupestre necessariamente pertencia a uma categoria especializada de “artistas”.

Talvez algumas práticas fossem coletivas.

Talvez diferentes pessoas participassem de um mesmo ritual.

Talvez uma pessoa posicionasse a mão enquanto outra aplicava o pigmento.

Ou talvez determinadas marcas fossem produzidas por indivíduos diferentes em momentos diferentes.

O estudo de 2026, inclusive, chama atenção para a possibilidade de ações colaborativas na produção de alguns estênceis, já que determinadas posições das mãos poderiam exigir a participação de mais de uma pessoa.

Nesse caso, a própria ideia de “autor” começa a ficar complicada.


E se a arte não fosse uma atividade individual?

Estamos muito acostumados a pensar em arte como algo produzido por um indivíduo.

Pensamos em:

Leonardo da Vinci.

Michelangelo.

Van Gogh.

Frida Kahlo.

Existe um artista e existe uma obra.

Mas talvez esse modelo não seja adequado para compreender determinadas práticas pré-históricas.

Imagine uma situação em que várias pessoas entram em uma caverna.

Uma prepara o pigmento.

Outra posiciona a mão.

Outra sopra o pigmento.

Uma criança observa.

Outra pessoa produz marcas próximas.

Alguém canta, fala ou realiza algum ritual.

Nesse cenário, quem é o artista?

A pessoa que colocou a mão?

A pessoa que soprou o pigmento?

Todo o grupo?

Não temos como responder.

Mas essa pergunta mostra por que precisamos evitar projetar nossos conceitos modernos sobre sociedades tão diferentes das nossas.


As mãos também são uma forma de presença

Existe algo particularmente poderoso nas mãos em comparação com outras imagens rupestres.

Quando olho para um animal pintado em uma caverna, vejo uma representação.

Quando olho para uma mão em negativo, vejo uma presença humana fossilizada na imagem.

Alguém esteve ali.

A pessoa colocou o próprio corpo contra aquela superfície.

Aplicou pigmento.

Retirou a mão.

E deixou para trás uma marca que atravessaria milhares de anos.

É quase impossível não imaginar a cena.

Quem era essa pessoa?

Era jovem?

Era velha?

Era homem?

Era mulher?

Estava sozinha?

Estava acompanhada?

Por que escolheu aquele lugar?

O que aquela marca significava para ela?

Nós provavelmente nunca saberemos todas essas respostas.

Mas, pela primeira vez, conseguimos chegar um pouco mais perto da pessoa por trás da imagem.


A questão também muda nossa maneira de olhar para as mulheres na Pré-História

Esse debate tem uma consequência importante.

Durante muito tempo, quando pensamos na produção cultural das sociedades pré-históricas, existe uma tendência de colocar os homens no centro.

Eles aparecem como caçadores, guerreiros, inventores e artistas.

As mulheres aparecem frequentemente em papéis ligados à reprodução e à vida doméstica.

Mas a arqueologia contemporânea vem questionando muitas dessas divisões rígidas.

Isso não significa criar uma nova versão igualmente simplista em que “as mulheres fizeram tudo”.

Significa reconhecer que não temos evidências suficientes para excluir mulheres da produção artística pré-histórica.

E, em alguns casos específicos, temos evidências que apontam justamente para sua participação.

Essa diferença é importante.

A História da Arte não deveria substituir um estereótipo por outro.

Deveria questionar os dois.


Então as mulheres pintavam as cavernas?

A resposta mais honesta é:

sim, existem evidências que indicam a participação de mulheres na produção de algumas representações rupestres.

Mas não podemos afirmar que todas — ou sequer a maioria — das pinturas rupestres tenham sido feitas por mulheres.

A situação é mais complexa.

As pesquisas sobre estênceis de mãos apontam para participação de mulheres, homens e crianças, e os métodos utilizados para determinar sexo continuam sendo aperfeiçoados.

Portanto, a conclusão não deveria ser:

“Descobrimos que as mulheres eram as verdadeiras artistas das cavernas.”

A conclusão mais interessante é:

“A antiga ideia de que a produção da arte rupestre era essencialmente masculina não se sustenta como uma regra geral.”

E isso já é uma mudança enorme.


O mais importante talvez seja abandonar a imagem do “homem das cavernas”

No fim, talvez o maior problema esteja justamente nessa expressão.

Quando falamos em “homem das cavernas”, criamos uma figura quase caricatural:

um homem primitivo, vivendo dentro de uma caverna, caçando animais e desenhando nas paredes.

Mas as pessoas que produziram essas imagens eram seres humanos complexos.

Tinham relações sociais.

Tinham conhecimentos sobre o ambiente.

Dominavam materiais e técnicas.

Criavam símbolos.

Participavam de práticas coletivas.

E, ao que tudo indica, diferentes membros dessas comunidades podiam participar da produção de imagens.

A arte rupestre deixa de ser apenas uma coleção de desenhos antigos e passa a ser uma janela para as relações sociais dessas comunidades.


O que isso muda na História da Arte?

Para mim, essa é a parte mais interessante.

Quando descobrimos que mulheres provavelmente participaram da produção de arte rupestre, não estamos simplesmente acrescentando “artistas mulheres” a uma lista.

Estamos questionando a maneira como construímos a própria História da Arte.

Durante séculos, muitas narrativas artísticas foram organizadas em torno de nomes individuais.

Mas a arte pré-histórica nos obriga a pensar em algo diferente.

E se a produção artística sempre tivesse sido mais coletiva do que imaginamos?

E se mulheres, homens e crianças participassem de determinadas práticas visuais?

E se o conceito moderno de “artista” não fosse adequado para algumas sociedades antigas?

Essas perguntas são mais importantes do que tentar encontrar uma resposta simples.

Porque a arte pré-histórica não deixou textos explicando seus próprios significados.

Ela deixou marcas.

E cabe a nós aprender a interpretá-las sem transformar nossas suposições em certezas.

No final, talvez aquela mão na parede não esteja dizendo apenas:

“Eu estive aqui.”

Talvez ela também esteja nos lembrando:

“Você não sabe quem eu fui.”

E talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes da História da Arte.

Milhares de anos depois, ainda estamos tentando descobrir quem segurou o pigmento.

Referências

FERNÁNDEZ-NAVARRO, Verónica; GODINHO, Ricardo Miguel; GARCÍA MARTÍNEZ, Daniel; GARATE MAIDAGAN, Diego. Exploring the utility of Geometric Morphometrics to analyse prehistoric hand stencils. Scientific Reports, v. 14, n. 1, p. 6336, 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-56889-3.

FERNÁNDEZ-NAVARRO, Verónica; FIDALGO CASARES, Diego; GARCÍA MARTÍNEZ, Daniel; GARATE MAIDAGAN, Diego. Decoding Palaeolithic Hand Stencils: Age and Sex Identification Through Geometric Morphometrics. Journal of Archaeological Method and Theory, v. 32, art. 24, 2025. DOI: 10.1007/s10816-025-09693-w.

FERNÁNDEZ-NAVARRO, Verónica; SPAEY, Olga; GARATE, Diego. Reevaluating Hand Stencil Phenomena in Cave Art: A Step Forward towards the Characterization of Symbolic Patterns during the Upper Palaeolithic in Europe. Cambridge Archaeological Journal, 2026. DOI: 10.1017/S0959774325100322.

SNOW, Dean R. Sexual Dimorphism in European Upper Paleolithic Cave Art. American Antiquity, v. 82, n. 1, p. 156–163, 2017.

SNOW, Dean R. Sexually Dimorphic Finger Lengths and the Origin of Upper Paleolithic Cave Art. In: ______. [Estudos sobre estênceis de mãos e dimorfismo sexual na arte paleolítica]. 2013.

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