Como funciona um concurso literário? Um guia para quem quer participar

Quando comecei a participar de concursos literários, percebi que escrever o texto era apenas uma parte da experiência.

Antes de enviar um conto, um poema ou um romance, existem várias coisas que precisam ser observadas: regulamento, prazo, formato do arquivo, número de páginas, inscrição, anonimato, direitos autorais e até a maneira como o texto deve ser identificado.

E não existe uma regra única para todos os concursos.

Cada edital estabelece suas próprias condições.

Por isso, se você está pensando em participar de um concurso literário pela primeira vez, minha principal recomendação é simples: leia o regulamento antes de começar a preparar o texto para envio.

Pode parecer óbvio, mas é justamente aí que muitos problemas começam.

O que é um concurso literário?

Um concurso literário é uma seleção de obras realizada a partir de determinados critérios estabelecidos previamente.

Dependendo da proposta, podem ser aceitos:

  • contos;
  • poemas;
  • romances;
  • crônicas;
  • ensaios;
  • peças teatrais;
  • literatura infantil;
  • textos de determinados gêneros ou temas.

Alguns concursos são voltados para uma categoria específica. Outros possuem várias categorias.

Também existem concursos municipais, estaduais, nacionais e internacionais, além de premiações promovidas por editoras, instituições culturais, universidades, fundações e organizações independentes.

Por isso, quando encontro um concurso que parece interessante, a primeira coisa que procuro não é o prêmio.

É o edital.

O edital é a parte mais importante

O edital é onde estão as regras da competição.

É ali que você normalmente encontrará informações como:

  • quem pode participar;
  • idade mínima ou máxima, quando houver;
  • nacionalidade ou local de residência exigido;
  • gênero literário aceito;
  • tema;
  • tamanho máximo do texto;
  • formato do arquivo;
  • prazo de inscrição;
  • taxa de inscrição, se houver;
  • documentos necessários;
  • forma de envio;
  • composição da comissão julgadora;
  • critérios de avaliação;
  • quantidade de vencedores;
  • premiação;
  • divulgação do resultado;
  • regras sobre publicação dos textos.

Eu sei que um edital pode ser cansativo.

Mas prefiro gastar alguns minutos lendo as regras a descobrir depois que meu texto foi desclassificado porque tinha uma página a mais.

Leia as regras até o fim

Essa é uma coisa que aprendi a levar muito a sério.

Às vezes, a informação mais importante não está na primeira página.

O concurso pode estabelecer, por exemplo, que o texto deve ser enviado sem identificação do autor.

Ou pode determinar que o arquivo tenha uma determinada extensão.

Pode exigir que a inscrição seja feita por formulário.

Pode estabelecer uma quantidade máxima de caracteres em vez de páginas.

Pode exigir uma declaração específica.

Pode determinar que o texto seja inédito.

Ou pode permitir textos que já tenham sido publicados.

São detalhes que variam muito.

Por isso, não existe uma espécie de “formato universal” para concursos literários.

Existe o regulamento daquele concurso.

Preciso escrever algo inédito?

Depende.

Alguns concursos exigem que o texto seja inédito.

Outros permitem textos já publicados.

E há regulamentos que estabelecem uma definição específica para o que consideram “inédito”.

Essa parte merece atenção especial.

Eu não presumiria que “inédito” significa simplesmente “nunca publiquei na Amazon”.

Um texto publicado em um blog, em uma rede social, em uma revista, em uma coletânea ou em outro espaço pode ter regras diferentes dependendo do edital.

Por isso, se existe qualquer dúvida sobre a situação do seu texto, vale conferir exatamente a definição apresentada no regulamento.

Posso participar com um texto que já enviei para outro concurso?

Novamente: depende do edital.

Alguns concursos não impõem exclusividade.

Outros podem estabelecer que o texto não esteja concorrendo simultaneamente em outra premiação.

Há também regulamentos que estabelecem condições específicas para obras premiadas ou selecionadas.

Por isso, antes de reutilizar um conto, eu verificaria três coisas:

O concurso permite textos já inscritos em outras seleções?

Existe alguma exigência de exclusividade?

O texto precisa ser inédito ou não publicado?

São perguntas diferentes.

Como funciona a inscrição?

A inscrição também varia bastante.

Atualmente, muitos concursos utilizam formulários online.

O participante pode precisar preencher:

  • nome completo;
  • e-mail;
  • telefone;
  • endereço;
  • pseudônimo;
  • título da obra;
  • categoria;
  • documento de identificação;
  • arquivo da obra;
  • comprovante de pagamento, quando houver.

Alguns concursos separam os dados pessoais do arquivo literário justamente para permitir uma avaliação anônima.

Por isso, se o edital disser para não colocar seu nome no arquivo, não coloque.

Parece um detalhe pequeno, mas pode ser uma regra de desclassificação.

O que é pseudônimo?

Em alguns concursos, o autor envia a obra usando um pseudônimo.

A ideia é separar a identidade do escritor do texto durante a avaliação.

Por exemplo, em vez de o arquivo apresentar:

“Kelly Carvalho — O Abismo”

pode ser solicitado algo como:

“Autora: Aurora”

A identidade real fica registrada no formulário ou em um documento separado.

Mas isso não é obrigatório em todos os concursos.

Se o regulamento não pedir pseudônimo, não invente um procedimento por conta própria.

Siga as instruções específicas.

Como os textos são avaliados?

Essa é uma das partes mais difíceis de explicar porque não existe um único método.

Cada concurso define seus próprios critérios.

A comissão pode considerar aspectos como:

  • qualidade literária;
  • originalidade;
  • construção narrativa;
  • linguagem;
  • estrutura;
  • personagens;
  • desenvolvimento do tema;
  • domínio da escrita;
  • criatividade.

Mas o peso de cada elemento depende do regulamento.

E existe outra questão importante:

literatura não é uma competição com uma fórmula matemática simples.

Dois jurados podem ler o mesmo conto e perceber coisas diferentes.

Um pode valorizar uma linguagem mais experimental.

Outro pode se interessar mais pela construção narrativa.

Isso não significa que a avaliação seja necessariamente aleatória.

Significa apenas que existe uma dimensão interpretativa na leitura literária.

Quem escolhe os vencedores?

Normalmente existe uma comissão julgadora ou uma banca.

A composição varia conforme o concurso.

Pode envolver escritores, professores, pesquisadores, críticos, editores, artistas ou outros profissionais relacionados à literatura e à cultura.

Alguns editais apresentam os nomes dos jurados antes do resultado.

Outros não.

Novamente, é uma informação que deve estar no regulamento ou nas comunicações oficiais da organização.

E se meu texto não ganhar?

Essa talvez seja uma das partes mais importantes de entender antes de participar.

Um concurso literário não é uma avaliação definitiva da qualidade de um escritor.

Você pode escrever um texto excelente e não ser selecionado.

Isso pode acontecer porque outro texto se encaixou melhor na proposta daquele concurso, porque a comissão fez determinada escolha estética ou simplesmente porque havia muitas obras concorrendo.

E o contrário também pode acontecer: um texto que você considera pequeno ou experimental pode encontrar uma comissão que se interessa justamente por aquilo.

Por isso, eu tento não transformar o resultado de um concurso em um julgamento absoluto sobre meu trabalho.

Participar é também colocar o texto diante de leitores diferentes.

E o prêmio?

Os prêmios variam muito.

Pode haver:

  • dinheiro;
  • publicação;
  • troféu;
  • certificado;
  • livros;
  • participação em uma coletânea;
  • divulgação;
  • residência artística;
  • bolsas;
  • contratos ou outros benefícios.

Alguns concursos não oferecem dinheiro, mas publicam os vencedores.

Outros possuem prêmios financeiros bastante significativos.

É importante verificar exatamente o que está sendo oferecido e em quais condições.

Se o edital promete publicação, por exemplo, eu procuraria saber como ela funcionará.

Quantos exemplares?

Em formato físico ou digital?

O autor recebe exemplares?

Existe contrato?

Quem fica com os direitos de publicação?

Por quanto tempo?

Essas informações podem ser muito mais importantes do que simplesmente ler “publicação para os vencedores”.

Cuidado com os direitos autorais

Essa é uma parte que eu considero essencial.

Antes de enviar um texto, leia o que o regulamento diz sobre os direitos da obra.

Há uma diferença enorme entre:

“os textos vencedores poderão ser publicados em uma coletânea”

e:

“o participante cede todos os direitos de exploração da obra”.

São situações completamente diferentes.

Se houver cessão ou autorização de direitos, veja exatamente:

  • quais direitos estão sendo cedidos;
  • por quanto tempo;
  • para qual finalidade;
  • em quais territórios;
  • se existe remuneração;
  • se a autorização é exclusiva ou não.

Não estou dizendo que um concurso com cessão de direitos seja necessariamente ruim.

Estou dizendo que você precisa saber o que está assinando ou autorizando.

Concurso com taxa de inscrição é golpe?

Não necessariamente.

Existem concursos que cobram taxa de inscrição e concursos gratuitos.

A existência de uma taxa, sozinha, não prova que uma premiação seja legítima ou ilegítima.

O que eu faria é pesquisar a organização responsável e ler o regulamento.

Procure informações sobre:

  • instituição promotora;
  • edições anteriores;
  • vencedores anteriores;
  • comissão julgadora;
  • regulamento;
  • forma de divulgação;
  • premiação;
  • contrato ou cessão de direitos.

E desconfie de promessas exageradas.

Especialmente quando a comunicação tenta vender a ideia de que praticamente qualquer participante será reconhecido, publicado ou “descoberto”.

Um concurso sério precisa deixar claras as suas regras.

Como escolher quais concursos participar?

Eu não tento participar de absolutamente todos.

Antes de me inscrever, penso em algumas coisas.

O concurso aceita o tipo de texto que escrevo?

O regulamento é claro?

A organização é identificável?

A premiação realmente me interessa?

As condições de publicação fazem sentido para mim?

Existe alguma cláusula de direitos autorais que eu não quero aceitar?

O prazo é viável?

E, principalmente:

eu realmente quero colocar esse texto nesse concurso?

Nem todo concurso precisa ser uma oportunidade para você.

Às vezes, o texto combina muito mais com uma revista, uma coletânea ou outro prêmio.

Como preparar o texto para enviar

Depois de escolher o concurso, eu faço uma última revisão específica para aquela seleção.

Não é necessariamente uma reescrita completa.

É uma conferência.

Verifico:

  • título;
  • ortografia;
  • pontuação;
  • formatação;
  • número de páginas ou caracteres;
  • fonte e espaçamento exigidos;
  • nome do arquivo;
  • identificação do autor;
  • pseudônimo, quando solicitado;
  • formato do documento.

Também verifico se o arquivo abre corretamente.

Pode parecer exagero, mas é melhor descobrir um problema antes do envio.

Não tente escrever “o texto que vai ganhar”

Essa talvez seja uma das armadilhas mais perigosas.

Quando começamos a participar de concursos, podemos ficar obcecados tentando descobrir qual tipo de história os jurados querem ler.

“Será que eles gostam de literatura experimental?”

“Será que querem algo triste?”

“Será que terror não funciona?”

“Será que preciso escrever algo muito profundo?”

Eu prefiro outra abordagem.

Escrevo a história que quero escrever e, depois, procuro concursos nos quais ela possa fazer sentido.

Isso não significa ignorar o tema ou o regulamento.

Significa não transformar a escrita em uma tentativa desesperada de adivinhar o pensamento de uma comissão que você nem conhece.

Concurso também é uma forma de circulação

Uma das coisas que mais gosto nos concursos literários é que eles podem fazer o escritor sair do espaço privado do próprio computador.

Você termina um conto.

Envia.

E ele passa a circular.

Pode ser lido por uma comissão.

Pode ser selecionado.

Pode ser publicado.

Pode encontrar outros leitores.

Pode até não ganhar nada.

Mas já deixou de existir apenas entre você e seu arquivo.

Para mim, isso é uma parte importante da experiência de escrever.

O resultado não define sua literatura

Já participei de concursos em que não fui selecionada e também tive textos reconhecidos.

A experiência me ensinou uma coisa que parece simples, mas é fácil esquecer:

um resultado é um resultado.

Ele pertence àquele concurso, àquela edição, àquela comissão e àquelas obras concorrentes.

Não é um certificado definitivo sobre quem você é como escritora.

Por isso, se você perder, continue escrevendo.

Se ganhar, continue escrevendo também.

O prêmio pode ser importante.

A publicação pode ser importante.

O reconhecimento pode ser importante.

Mas nenhuma dessas coisas substitui o trabalho de construir uma obra.

Antes de clicar em “enviar”

Eu faria esta pequena lista:

☐ Li o edital inteiro.

☐ Sei se o texto precisa ser inédito.

☐ Conferi o limite de páginas ou caracteres.

☐ Sei se posso usar um texto já publicado.

☐ Sei se existe exclusividade.

☐ Conferi as regras de identificação ou pseudônimo.

☐ Revisei o arquivo.

☐ Conferi o formato exigido.

☐ Entendi como funciona a premiação.

☐ Li as regras sobre direitos autorais.

☐ Conferi a data e o horário limite da inscrição.

☐ Guardei o comprovante de envio.

Se tudo estiver certo, aí sim eu clicaria em enviar.

Participar faz parte de aprender a ser escritor

No começo, um concurso literário pode parecer uma coisa muito distante.

Parece que existem escritores “de verdade” participando e que você está apenas tentando a sorte.

Eu não vejo dessa maneira.

Se você escreve e envia seu trabalho, já está participando do circuito literário.

Você está colocando seu texto diante de leitores que não têm nenhuma obrigação de gostar dele.

E isso é uma experiência importante.

Nem todo concurso vai dar certo.

Nem todo texto será selecionado.

Nem todo prêmio será interessante.

Mas aprender a ler editais, preparar textos, lidar com resultados e colocar sua literatura em circulação também faz parte da vida de quem escreve.

No fim, o concurso é apenas uma das portas possíveis.

O mais importante continua acontecendo antes e depois dele: escrever.

Referências

BRASIL. Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1998.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

ECO, Umberto. Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. São Paulo: Perspectiva, 2004.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SODRÉ, Muniz; FERRARI, Maria Helena. Técnica de reportagem: notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986.

TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

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