
Quando penso em terror, a primeira coisa que me vem à cabeça não é um monstro pulando na frente do personagem. Também não é necessariamente uma cena de violência ou uma criatura aparecendo no escuro.
Para mim, o terror começa muito antes disso.
Ele começa naquele momento em que alguma coisa parece estar errada, mas o personagem ainda não consegue entender exatamente o quê.
É justamente por isso que acredito que uma história de terror não precisa depender de sustos para funcionar. Um susto pode ser eficiente, claro, mas ele dura alguns segundos. O medo que permanece depois que a história termina é construído de outra maneira.
E, como escritora, é esse tipo de medo que mais me interessa.
O susto e o medo não são a mesma coisa
Existe uma diferença simples entre assustar alguém e causar medo.
Um susto depende muito do impacto imediato. Uma porta bate, alguma coisa aparece repentinamente, uma música muda, um personagem olha para trás e encontra uma figura que não estava ali.
O leitor reage.
Mas alguns segundos depois, a reação passa.
O medo funciona de uma maneira diferente. Ele pode começar pequeno e continuar crescendo mesmo quando aparentemente nada está acontecendo.
Uma casa vazia pode ser assustadora.
Uma ligação recebida no meio da madrugada pode ser assustadora.
Uma pessoa conhecida agir de maneira estranha pode ser assustador.
E nada disso precisa resultar imediatamente em um monstro aparecendo.
Quando escrevo terror, gosto justamente dessa possibilidade: fazer o leitor perceber que existe alguma coisa errada antes mesmo de revelar o que está acontecendo.
O que o leitor imagina pode ser pior do que aquilo que eu descrevo
Uma das coisas que mais gosto no terror é não entregar tudo.
Existe uma tentação, principalmente quando estamos começando a escrever, de explicar a criatura.
Qual é sua aparência?
De onde ela veio?
O que ela quer?
Por que ela está perseguindo o personagem?
Qual é sua fraqueza?
Às vezes, essas respostas são necessárias. Mas, em outras situações, explicar demais destrói justamente aquilo que tornava a ameaça assustadora.
Se eu digo que existe uma criatura no quarto e descrevo absolutamente tudo sobre ela, o leitor recebe uma imagem pronta.
Se eu digo apenas que o personagem ouviu uma respiração atrás da porta, mas sabe que mora sozinho, deixo uma parte do trabalho para a imaginação.
E a imaginação do leitor pode criar algo muito pior do que qualquer descrição que eu consiga escrever.
Por isso, nem sempre esconder é falta de informação.
Às vezes, esconder é uma escolha narrativa.
O terror pode começar em uma situação completamente normal
Uma das formas que considero mais interessantes de escrever terror é começar pelo cotidiano.
Um personagem acorda.
Faz café.
Vai trabalhar.
Volta para casa.
Recebe uma mensagem.
Nada disso parece assustador.
E é justamente aí que está a oportunidade.
Quando uma situação normal começa a apresentar pequenas alterações, o leitor percebe a mudança.
O relógio marca uma hora diferente todos os dias.
Uma fotografia parece ter mudado.
O vizinho repete a mesma frase.
O personagem começa a ouvir passos no corredor.
Uma porta que sempre ficava fechada aparece aberta.
Nada disso precisa ser explicado imediatamente.
O cotidiano cria uma referência. Quando essa referência começa a ser quebrada, o leitor percebe que alguma coisa está acontecendo.
É como se a história dissesse:
“Você conhece esse lugar. É justamente por isso que deveria prestar atenção.”
O silêncio também pode ser uma ferramenta
Nem toda cena de terror precisa estar acontecendo o tempo inteiro.
Aliás, acho que o excesso de acontecimentos pode diminuir o medo.
Se alguma coisa assustadora acontece a cada duas páginas, o leitor acaba se acostumando.
Por isso, gosto da ideia de alternar tensão e tranquilidade.
Uma cena pode terminar com algo estranho.
Depois, o personagem passa algumas páginas fazendo uma atividade completamente comum.
Mas o leitor continua pensando naquela coisa.
Esse intervalo é importante.
O medo não desapareceu. Ele apenas saiu do centro da narrativa por alguns instantes.
É parecido com entrar em uma casa que parece vazia. Você não precisa encontrar alguém imediatamente. Às vezes, basta ouvir um barulho no andar de cima e continuar andando.
O leitor começa a esperar.
E esperar também é uma forma de medo.
Crie uma ameaça que o leitor consiga sentir antes de compreender
Uma boa ameaça não precisa ser completamente conhecida.
Ela precisa ser percebida.
Essa diferença é importante.
Imagine que uma personagem esteja voltando para casa todas as noites pelo mesmo caminho. Em determinado momento, ela percebe que existe alguém caminhando atrás dela.
A primeira pergunta do leitor provavelmente será:
“Quem é essa pessoa?”
Mas talvez eu não precise responder.
Posso fazer a personagem acelerar o passo.
A pessoa atrás dela também acelera.
Ela entra em uma loja.
Espera alguns minutos.
Sai.
A rua parece vazia.
Quando olha para trás, não há ninguém.
Isso pode ser mais interessante do que revelar imediatamente um assassino segurando uma faca.
Porque agora existe uma pergunta.
E perguntas mantêm o leitor dentro da história.
O medo psicológico nasce da dúvida
O terror psicológico trabalha muito bem com a incerteza.
O personagem está realmente vendo aquilo?
Está sendo perseguido?
Está enlouquecendo?
Alguém está mentindo?
Aquela memória aconteceu mesmo?
Existe alguma explicação racional?
Não existe?
Eu gosto desse tipo de situação porque o leitor fica preso à mesma posição do personagem.
Ele também não sabe em quem confiar.
E, quando o leitor não consegue encontrar uma resposta segura, começa a preencher os espaços.
É aí que a história pode ficar realmente desconfortável.
Use os sentidos
Uma coisa que pode deixar uma cena muito mais assustadora é parar de depender apenas da visão.
No terror, enxergar alguma coisa não é a única maneira de perceber uma ameaça.
Existe o som.
Uma respiração.
Um rangido.
Passos.
Uma voz distante.
Existe o cheiro.
Mofo.
Sangue.
Perfume.
Terra molhada.
Existe o tato.
Uma maçaneta gelada.
Uma superfície úmida.
Alguma coisa tocando o personagem no escuro.
E existe até a ausência desses sentidos.
Um personagem entra em um lugar onde não consegue ouvir absolutamente nada.
Nenhum vento.
Nenhum inseto.
Nenhum ruído da rua.
O silêncio pode ser mais perturbador do que um grito.
Quanto mais concreto for o ambiente, mais fácil fica para o leitor imaginar estar ali.
Não tenha medo de escrever cenas aparentemente banais
Às vezes, uma cena de terror precisa ser lenta.
Um personagem pode estar lavando a louça.
Pode estar sentado no ônibus.
Pode estar arrumando a cama.
Pode estar tentando dormir.
O segredo está em encontrar alguma pequena coisa que não deveria estar ali.
Uma segunda xícara sobre a mesa.
Uma porta aberta.
Uma mensagem enviada pelo próprio número.
Uma cadeira fora do lugar.
Uma fotografia virada para a parede.
A partir daí, a cena comum começa a adquirir outro significado.
E isso é muito mais interessante para mim do que transformar cada parágrafo em uma sequência de acontecimentos extraordinários.
O monstro não precisa aparecer
Quando existe uma criatura sobrenatural na história, eu não acho que seja obrigatório mostrar sua aparência logo de cara.
Aliás, às vezes é melhor não mostrar.
Podemos mostrar as consequências.
Um animal que se recusa a entrar em determinado cômodo.
Uma criança que conversa com alguém que os adultos não conseguem ver.
Uma pessoa que desaparece.
Marcas na parede.
Objetos mudando de lugar.
Uma voz chamando pelo personagem.
O leitor começa a montar o quebra-cabeça.
E quando finalmente aparece alguma coisa, o impacto pode ser maior justamente porque houve preparação.
O monstro deixa de ser apenas uma imagem.
Ele passa a ter uma presença.
O passado do personagem também pode ser assustador
Outra maneira de construir terror sem depender de sustos é trabalhar com o passado.
O personagem pode carregar uma culpa.
Um trauma.
Uma lembrança que tenta esquecer.
Um segredo.
Uma pessoa que morreu.
Uma decisão que gostaria de desfazer.
O sobrenatural pode surgir justamente desse passado.
Mas nem sempre é necessário que exista um fantasma literalmente perseguindo alguém.
Às vezes, o terror está naquilo que a pessoa não consegue deixar para trás.
Isso também permite que o horror tenha uma dimensão mais pessoal.
A ameaça não está apenas do lado de fora.
Ela está ligada ao próprio personagem.
Faça o leitor desconfiar do que está acontecendo
Uma das minhas ferramentas favoritas no terror é a dúvida.
Se tudo está explicado, o leitor pode apenas acompanhar.
Se alguma coisa não fecha completamente, ele começa a participar.
“Será que foi isso mesmo?”
“Ela está mentindo?”
“Ele viu alguma coisa?”
“Por que ninguém percebeu?”
“Será que existe outra explicação?”
Essas perguntas fazem parte da experiência.
Por isso, nem sempre uma história de terror precisa responder absolutamente tudo.
Algumas histórias terminam justamente quando o leitor percebe que a situação é muito maior do que imaginava.
E isso pode ser muito mais perturbador do que uma explicação final.
O terror precisa de consequências
Uma ameaça perde força quando não muda nada.
Se o personagem encontra algo terrível e continua sua vida normalmente, o leitor pode sentir que aquilo não tinha importância.
Por isso, quando escrevo ou penso em uma história de terror, considero importante perguntar:
O que essa experiência está fazendo com o personagem?
Ele deixou de dormir?
Começou a desconfiar das pessoas?
Está evitando determinado lugar?
Está perdendo alguma coisa?
Está tomando decisões que normalmente não tomaria?
O medo precisa interferir na história.
Não basta existir uma coisa assustadora.
É preciso mostrar o que acontece quando alguém precisa viver sabendo que essa coisa existe.
Como usar sustos sem depender deles
Isso não significa que sustos sejam proibidos.
Eu não acho.
Um susto pode funcionar muito bem quando é usado com moderação.
O problema aparece quando ele vira a única ferramenta.
Se todos os momentos de tensão terminam com alguém pulando na frente do personagem, o leitor começa a prever a estrutura.
Em vez disso, eu gosto de pensar no susto como uma consequência de uma tensão que já foi construída.
Primeiro vem a expectativa.
Depois, a dúvida.
Depois, o silêncio.
Depois, alguma coisa muda.
E só então vem o impacto.
Assim, o susto não precisa carregar a cena inteira sozinho.
Ele se torna parte de uma construção maior.
Para mim, o terror começa quando o familiar deixa de ser seguro
Essa talvez seja a ideia que mais gosto de levar para minhas próprias histórias.
Não precisamos necessariamente levar o personagem para um castelo abandonado, um cemitério ou uma floresta escura.
Podemos começar dentro de casa.
No quarto.
Na escola.
No trabalho.
Em uma igreja.
Em uma estrada conhecida.
Em qualquer lugar.
Porque o terror pode surgir quando um espaço familiar deixa de parecer familiar.
A casa continua sendo a mesma, mas alguma coisa mudou.
A pessoa continua sendo a mesma, mas alguma coisa nela parece diferente.
A rotina continua existindo, mas agora existe uma pequena rachadura nela.
É dessa rachadura que o medo pode nascer.
No fim, o que assusta é aquilo que continua depois da página
Eu não acho que uma história de terror precise fazer o leitor pular da cadeira.
Para mim, um resultado muito mais interessante é quando a pessoa termina o conto, fecha o livro e continua pensando naquela história.
Quando olha para uma porta entreaberta.
Quando escuta um barulho durante a madrugada.
Quando lembra de uma frase que parecia insignificante.
Quando começa a imaginar o que poderia estar atrás daquela porta.
Esse é o tipo de terror que eu gosto de escrever.
O susto acontece uma vez.
O medo pode continuar por muito mais tempo.
E talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre simplesmente assustar alguém e realmente construir uma história de terror.
Referências
CARROLL, Noël. The Philosophy of Horror, or Paradoxes of the Heart. New York: Routledge, 1990.
FREUD, Sigmund. O inquietante. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917–1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LOVECRAFT, H. P. O horror sobrenatural na literatura. São Paulo: Iluminuras, 2007.
POE, Edgar Allan. Filosofia da composição. In: POE, Edgar Allan. Poemas e ensaios. Rio de Janeiro: Globo, 1985.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2017.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiros. Curitiba: Arte & Letra, 2006.


