
Diálogo parece uma das coisas mais simples de escrever.
Duas pessoas conversando. Uma fala, a outra responde. E pronto.
Na prática, não é tão fácil.
Quando começamos a escrever, é comum criar conversas que parecem mais uma explicação para o leitor do que uma conversa entre duas pessoas. Os personagens dizem exatamente aquilo que precisam dizer, explicam coisas que os dois já sabem e respondem perfeitamente a todas as perguntas.
O resultado pode até estar correto, mas não parece uma conversa.
Para mim, escrever um bom diálogo é muito mais do que reproduzir a maneira como as pessoas falam. É descobrir o que existe por trás daquilo que elas estão dizendo.
Uma conversa real não é necessariamente um bom diálogo
Essa é uma distinção importante.
Se você gravasse uma conversa comum entre duas pessoas e colocasse tudo em um livro, provavelmente ficaria cansativo.
Na vida real, nós repetimos palavras, mudamos de assunto, fazemos pausas, falamos coisas sem importância e muitas vezes não chegamos a lugar nenhum.
Na literatura, o diálogo precisa ter alguma função.
Pode revelar uma informação.
Pode criar conflito.
Pode mostrar a personalidade de alguém.
Pode esconder alguma coisa.
Pode aumentar a tensão.
Pode mudar a relação entre dois personagens.
O diálogo não precisa ser artificial para ser organizado.
Ele precisa parecer espontâneo, mas ter uma função dentro da história.
Pare de fazer seus personagens explicarem o que já sabem
Esse talvez seja um dos problemas mais comuns.
Imagine dois irmãos conversando:
— Como você está, João? Desde que nossa mãe morreu há três anos, você nunca mais foi o mesmo.
É uma frase estranha.
João sabe que a mãe morreu.
Também sabe há quanto tempo isso aconteceu.
Quem precisa dessa informação é o leitor.
Então o personagem acaba falando como se estivesse explicando a própria história para quem está lendo.
Uma maneira mais natural seria:
— Você ainda pensa nela?
João ficou em silêncio.
— Todo dia.
O passado aparece sem precisar ser explicado inteiro.
É uma coisa que tento observar bastante: quando um personagem diz alguma coisa, pergunto se ele realmente diria aquilo para aquela pessoa.
Se a resposta for não, provavelmente existe uma maneira melhor de apresentar a informação.
Pessoas não dizem exatamente o que sentem
Uma das coisas mais interessantes em uma conversa é justamente aquilo que não é dito.
Uma personagem pode estar com ciúmes e dizer:
— Você demorou.
Em vez de:
— Estou com ciúmes porque você ficou duas horas conversando com aquela mulher.
Um personagem pode estar magoado e perguntar:
— Você vai mesmo?
Em vez de:
— Estou triste porque você está indo embora.
Na vida, nós fazemos isso o tempo todo.
Tentamos esconder sentimentos.
Mudamos de assunto.
Fazemos perguntas quando gostaríamos de dar uma resposta.
Ironizamos quando estamos nervosos.
Dizemos “tanto faz” quando claramente não é tanto faz.
Esse espaço entre o que o personagem sente e o que ele fala pode criar diálogos muito mais interessantes.
Cada personagem deve falar de um jeito
Se você retirar os nomes de uma cena e colocar apenas as falas, ainda deveria existir alguma diferença entre os personagens.
Não significa que cada um precise ter um sotaque ou uma expressão exagerada.
Pode ser algo mais sutil.
Uma pessoa fala muito.
Outra responde apenas o necessário.
Uma interrompe.
Outra pensa antes de responder.
Uma transforma tudo em piada.
Outra leva tudo a sério.
Uma evita conflitos.
Outra procura briga.
A personalidade aparece na maneira como cada um usa as palavras.
E isso é especialmente importante quando existem muitos personagens em uma mesma história.
Não coloque sua própria voz na boca de todo mundo
Esse é um problema que percebo principalmente quando estamos começando a escrever.
Todos os personagens parecem ter a mesma inteligência, o mesmo vocabulário e a mesma capacidade de argumentação.
Eles fazem referências parecidas.
Usam as mesmas expressões.
Respondem com o mesmo ritmo.
Às vezes isso acontece porque, no fundo, todos estão falando como o autor.
Não é necessário transformar cada personagem em uma pessoa completamente diferente.
Mas é interessante pensar:
Como essa pessoa fala quando está nervosa?
Ela fala mais ou menos?
Ela tenta parecer inteligente?
Usa palavras difíceis?
Tem dificuldade de explicar o que sente?
Faz piadas?
Fica em silêncio?
Essas pequenas diferenças já ajudam bastante.
Use interrupções com cuidado
Na vida real, as pessoas interrompem umas às outras.
— Eu queria te contar uma coisa.
— Eu já sei.
— Não, você não sabe.
— Sei sim.
— Então por que…
Esse tipo de construção pode funcionar muito bem.
Mas não é necessário colocar interrupções em todas as conversas apenas para deixá-las “naturais”.
O mesmo vale para gírias, palavrões, reticências e palavras como “tipo”, “né”, “então”.
Naturalidade não significa copiar cada vício de linguagem.
Significa fazer o leitor acreditar que aquelas pessoas estão realmente conversando.
O silêncio também é diálogo
Uma pessoa não responder pode ser mais forte do que uma resposta.
— Você contou para alguém?
Ela não respondeu.
— Você contou?
Dessa vez, ele percebeu que já sabia a resposta.
O silêncio pode demonstrar medo, raiva, culpa, vergonha, dúvida ou simplesmente recusa.
Por isso, não tenha pressa de preencher todos os espaços.
Às vezes deixar uma pergunta sem resposta cria mais tensão do que escrever um parágrafo inteiro.
Cuidado com o excesso de nomes
Nós sabemos com quem estamos falando.
Normalmente não ficamos chamando a pessoa pelo nome a cada duas frases.
— Maria, você está bem?
— Estou, João.
— Maria, você precisa descansar.
— Eu sei, João.
— Maria, por favor.
— João, para.
Isso pode funcionar em algumas situações específicas, mas se for usado o tempo todo fica artificial.
O nome de alguém dentro de uma conversa costuma ter mais força quando existe uma razão para usá-lo.
Pode ser uma chamada de atenção.
Uma demonstração de intimidade.
Uma ameaça.
Uma surpresa.
Uma mudança emocional.
É diferente dizer:
— Você fez isso.
e:
— Kelly, você fez isso.
O nome pode carregar intenção.
Não explique a emoção depois de cada fala
Outro hábito que pode deixar o diálogo pesado é explicar constantemente aquilo que a própria fala já mostrou.
— Eu não quero ir — disse Maria, tristemente.
— Por quê? — perguntou João, confuso.
— Porque tenho medo — respondeu ela, assustada.
Se a cena já transmite essas emoções, talvez não seja necessário nomeá-las o tempo inteiro.
Podemos mostrar:
— Eu não quero ir.
João olhou para ela.
— Por quê?
Maria demorou alguns segundos antes de responder.
— Porque eu tenho medo.
O leitor consegue perceber a situação sem receber uma legenda emocional depois de cada frase.
Use o ambiente
Uma conversa não precisa acontecer em um espaço vazio.
Enquanto conversam, os personagens podem fazer alguma coisa.
Lavar louça.
Dirigir.
Arrumar uma mala.
Fumar na varanda.
Esperar um ônibus.
Preparar comida.
Andar pela rua.
Isso pode deixar a cena mais dinâmica e também revelar personalidade.
Imagine duas pessoas discutindo enquanto uma delas continua dobrando roupas.
Ela pode estar evitando olhar para a outra.
Pode dobrar a mesma camisa várias vezes.
Pode parar quando escuta determinada frase.
O movimento físico passa a participar da conversa.
O conflito torna o diálogo mais interessante
Nem toda conversa precisa terminar em uma briga.
Mas muitas cenas ficam mais interessantes quando os personagens querem coisas diferentes.
Uma pessoa quer descobrir a verdade.
A outra quer esconder.
Uma quer ir embora.
A outra quer que ela fique.
Uma quer pedir desculpas.
A outra não quer ouvir.
Esse pequeno choque de interesses cria movimento.
Compare:
— Você vai ao mercado?
— Vou.
— Quer que eu vá com você?
— Quero.
— Então vamos.
Não existe necessariamente um problema aqui.
Agora:
— Você vai ao mercado?
— Vou.
— Posso ir?
— Não.
— Por quê?
— Porque você sempre volta falando sobre ela.
De repente, existe uma história por trás da conversa.
Queremos saber quem é “ela”.
Por que isso incomoda?
O que aconteceu antes?
É esse tipo de pergunta que faz o leitor continuar.
Evite transformar diálogo em palestra
Personagens podem explicar coisas.
Mas, quando alguém passa páginas inteiras dando uma aula sobre determinado assunto, é preciso tomar cuidado.
Principalmente quando todos os personagens já sabem daquilo.
Se você precisa apresentar uma informação importante, pense em maneiras de distribuí-la pela cena.
Uma frase.
Uma reação.
Uma pergunta.
Uma lembrança.
Uma interrupção.
Um objeto.
Um detalhe.
Não é necessário colocar toda a informação de uma vez.
Leia seus diálogos em voz alta
Essa é uma das coisas mais simples que faço durante uma revisão.
Leio a cena em voz alta.
Quando uma frase soa estranha na minha boca, presto atenção.
Quando percebo que todos os personagens têm exatamente o mesmo ritmo, volto ao texto.
Quando uma fala parece bonita demais para ser dita por uma pessoa naquela situação, também observo.
Ler em voz alta ajuda a encontrar coisas que passam despercebidas quando estamos apenas olhando para a página.
E não precisa interpretar como um ator.
Leia normalmente.
Se você tropeçar em uma frase, provavelmente vale a pena revisá-la.
Corte o que não precisa estar ali
Depois de escrever uma conversa, tente fazer uma segunda leitura pensando apenas nisso:
O que posso retirar?
Talvez exista uma saudação que não precisa aparecer.
Talvez dois personagens repitam a mesma informação.
Talvez uma pergunta possa desaparecer.
Talvez uma resposta possa ser mais curta.
Às vezes o diálogo melhora justamente quando você tira palavras.
Isso não significa deixar todas as falas extremamente curtas.
Significa eliminar aquilo que não está fazendo nada.
O diálogo precisa combinar com a situação
A mesma pessoa não fala da mesma maneira em todos os momentos.
Alguém pode ser engraçado normalmente e ficar completamente sério diante de uma notícia ruim.
Uma pessoa tímida pode falar muito quando está com alguém em quem confia.
Um personagem educado pode perder a paciência.
Uma pessoa extremamente segura pode começar a gaguejar diante de determinada situação.
Isso também ajuda a evitar personagens previsíveis.
A voz de um personagem não precisa ser uma prisão.
Ela pode mudar conforme a situação.
Um exercício que ajuda bastante
Pegue dois personagens seus e coloque os dois em uma situação simples.
Não precisa ser uma cena da história.
Por exemplo:
Eles estão esperando alguém que está atrasado.
Agora escreva a conversa.
Depois, faça algumas perguntas:
Quem está mais preocupado?
Quem tenta esconder a preocupação?
Quem fala mais?
Quem quer ir embora?
Quem sabe alguma coisa que o outro não sabe?
Quem está mentindo?
O interessante é que uma situação aparentemente banal pode revelar bastante coisa.
Depois faça o mesmo com uma situação mais difícil.
Um deles descobriu um segredo do outro.
Agora a conversa muda completamente.
É nesse tipo de exercício que começamos a perceber que diálogo não é apenas troca de informações.
É uma disputa de vontades.
Antes de escrever uma cena, pergunte o que está acontecendo por baixo
Essa é provavelmente a pergunta que mais me ajuda:
O que esses personagens estão realmente tentando conseguir nesta conversa?
Porque uma pessoa pode perguntar:
— Você está bem?
Mas talvez esteja tentando descobrir se o outro está mentindo.
Outra pode dizer:
— Eu não estou com raiva.
Mas talvez esteja esperando que alguém peça desculpas.
Outra pode dizer:
— Pode ir.
Mas, na verdade, quer desesperadamente que a pessoa fique.
Quando sabemos o que está acontecendo por baixo das palavras, o diálogo começa a ganhar outra camada.
Um bom diálogo não precisa parecer uma transcrição
No fim, acho que esse é o ponto principal.
Eu não tento escrever exatamente como as pessoas falam.
Tento escrever de uma maneira que faça o leitor acreditar que aquelas pessoas poderiam falar daquele jeito.
Existe uma diferença.
O diálogo literário é uma construção.
Ele tem ritmo.
Tem intenção.
Tem cortes.
Tem silêncio.
Tem informação escondida.
E, principalmente, tem personagens.
Quando duas pessoas conversam em uma história, não quero apenas saber o que elas estão dizendo.
Quero perceber quem elas são.
Quero perceber o que estão tentando esconder.
Quero perceber aquilo que gostariam de dizer, mas não conseguem.
E, às vezes, quero que o leitor termine uma conversa pensando:
“Eles estavam falando sobre isso, mas claramente havia outra coisa acontecendo.”
É nesse momento que o diálogo deixa de ser apenas uma conversa.
Ele passa a fazer parte da história.
Referências
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ECO, Umberto. Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. São Paulo: Perspectiva, 2004.
FORSTER, E. M. Aspects of the Novel. London: Edward Arnold, 1927.
GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. Lisboa: Vega, 1995.
MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiros. Curitiba: Arte & Letra, 2006.
ROSENFELD, Anatol. Literatura e personagem. In: CANDIDO, Antonio et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2009.
TODOROV, Tzvetan. Poética da prosa. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


