
Sempre que penso na origem de Roma, uma imagem me vem à cabeça: dois bebês abandonados às margens de um rio, encontrados por uma loba e, contra todas as probabilidades, destinados a se tornar os fundadores de uma das cidades mais importantes da história.
É uma história tão absurda que parece impossível levá-la a sério.
E talvez seja justamente por isso que ela seja tão fascinante.
A lenda de Rômulo e Remo não precisa ser verdadeira para ser importante. Pelo contrário. Ela nos revela muito sobre a maneira como os romanos enxergavam a própria origem, o poder, a violência e até mesmo o destino.
Dois irmãos, uma cidade
Segundo a tradição romana, Rômulo e Remo eram filhos de Reia Sílvia e do deus Marte. A mãe havia sido obrigada a se tornar uma vestal, mas acabou engravidando dos dois irmãos.
Quando nasceram, foram considerados uma ameaça.
O rei Amúlio, temendo que aquelas crianças pudessem um dia recuperar o poder que pertencia à sua família, ordenou que fossem mortos.
Mas os bebês sobreviveram.
Foram colocados em um cesto e abandonados no rio Tibre.
É aqui que a história começa a ficar quase fantástica demais.
O rio não os matou.
Uma loba encontrou as crianças e as amamentou. Depois, um pastor chamado Fáustulo teria encontrado os irmãos e os criado junto de sua esposa, Acca Larência.
Eu gosto particularmente desse momento da narrativa porque ele parece resumir toda a lógica do mito.
Rômulo e Remo deveriam morrer.
Mas não morreram.
Foram abandonados.
Mas sobreviveram.
Foram separados de sua origem.
Mas um dia retornariam para reivindicá-la.
É como se a própria história estivesse dizendo que Roma não nasceu simplesmente. Roma precisou sobreviver.
A cidade que precisava de um fundador
Quando adultos, Rômulo e Remo descobriram sua verdadeira origem. Então decidiram enfrentar Amúlio e devolver o poder ao avô, Numitor.
Depois disso, os dois decidiram fundar uma nova cidade.
E é nesse ponto que a relação entre os irmãos começa a mudar.
Eles queriam construir uma cidade, mas não conseguiam concordar sobre onde ela deveria ficar.
Rômulo queria o monte Palatino.
Remo preferia o Aventino.
Eles consultaram os deuses para descobrir quem tinha razão. Cada um recebeu sinais diferentes, e a disputa se transformou em uma competição.
Mas existe algo nessa história que sempre me chama atenção.
A cidade que deveria representar um novo começo nasce de uma briga entre irmãos.
E essa briga termina em morte.
O assassinato de Remo
Segundo uma das versões mais conhecidas da lenda, Remo teria atravessado ou ridicularizado as muralhas construídas por Rômulo.
A reação do irmão foi brutal.
Rômulo matou Remo.
E então Roma teria sido fundada por Rômulo.
É uma ironia difícil de ignorar.
A cidade destinada a se tornar símbolo de poder, organização, engenharia, cultura e expansão teria como fundador um homem que matou o próprio irmão.
Para mim, essa é uma das partes mais interessantes da lenda.
Porque Roma não tenta esconder completamente a violência de sua própria origem.
Ela a transforma em mito.
Rômulo não é apresentado como um fundador perfeito. Ele é alguém capaz de criar e destruir ao mesmo tempo.
E talvez isso seja muito mais humano do que uma história sobre um herói impecável.
O mito não é história, mas também não é simplesmente mentira
É importante fazer uma distinção.
Não temos como tratar a história de Rômulo e Remo como um relato histórico comprovado. A tradição sobre a fundação de Roma foi construída e transmitida durante séculos, e as versões que chegaram até nós foram registradas muito tempo depois dos acontecimentos que pretendem narrar.
Isso não significa que a história seja inútil.
Quando estudo mitos antigos, uma das coisas que mais me interessa é justamente essa fronteira entre história e memória.
Um povo também conta histórias sobre si mesmo para explicar quem é.
E os romanos precisavam explicar Roma.
Precisavam explicar por que aquela cidade existia, por que possuía uma importância tão extraordinária e por que seu crescimento parecia destinado a acontecer.
Rômulo e Remo ofereciam uma resposta.
Roma não era apenas uma cidade.
Era uma cidade escolhida pelo destino.
Seus fundadores tinham sangue divino.
Tinham sobrevivido à morte.
Tinham derrotado seus inimigos.
E, principalmente, tinham enfrentado conflitos desde o começo.
A loba e o símbolo de Roma
Talvez nenhum elemento da história tenha se tornado tão famoso quanto a loba que amamentou os irmãos.
A imagem da loba com os dois bebês se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis associados a Roma.
E existe algo quase poético nisso.
Roma, uma cidade que posteriormente conquistaria enormes territórios, é representada no início de sua história por duas crianças indefesas.
Antes dos exércitos.
Antes das legiões.
Antes dos imperadores.
Antes dos monumentos.
Existiam apenas dois bebês tentando sobreviver.
Isso me faz pensar que os mitos de fundação muitas vezes funcionam assim: eles pegam algo gigantesco e tentam encontrar uma imagem simples para explicar sua origem.
Roma era enorme.
Sua origem precisava caber em uma história.
E essa história começou com uma loba, dois irmãos e um rio.
O que Rômulo e Remo realmente representam?
Quanto mais penso nessa história, menos me interessa descobrir se uma loba realmente amamentou dois bebês.
O que me interessa é perguntar por que os romanos quiseram contar essa história.
Rômulo e Remo representam uma sociedade que enxergava a violência como parte da construção do poder.
Representam também a ideia de destino.
Os irmãos deveriam morrer, mas sobreviveram.
Foram afastados do poder, mas retornaram.
Tentaram construir juntos, mas terminaram em conflito.
E apenas um deles permaneceu para dar nome à cidade.
Rômulo vence.
Remo morre.
Roma nasce.
É uma narrativa extremamente brutal, mas também extremamente simbólica.
Talvez a mensagem seja justamente esta: grandes civilizações não surgem necessariamente de histórias perfeitas.
Elas são construídas por seres humanos, e seres humanos são contraditórios.
Roma precisava de Rômulo
Existe ainda uma questão que considero fascinante.
O nome Roma tradicionalmente é relacionado a Rômulo.
Isso significa que, dentro da própria narrativa, a cidade carrega para sempre o nome de seu fundador.
Remo desaparece.
Rômulo permanece.
A memória também pode ser uma forma de poder.
Quem dá nome a uma cidade não está apenas criando um lugar. Está criando uma narrativa sobre aquele lugar.
E talvez seja por isso que Rômulo tenha sobrevivido muito mais na memória do que seu irmão.
Roma precisava de um fundador.
Precisava de um herói.
E Rômulo ocupou esse espaço.
Uma fundação marcada pela morte
Quando olho para a história de Rômulo e Remo, percebo que ela é menos uma história sobre dois irmãos e mais uma história sobre a maneira como Roma queria enxergar a si mesma.
Uma cidade destinada à grandeza.
Uma cidade protegida pelos deuses.
Uma cidade que sobrevive à violência.
Mas também uma cidade que nasce da própria violência.
Talvez seja justamente essa contradição que torne a lenda tão poderosa.
Roma nasceu de uma disputa.
Cresceu através de conflitos.
Construiu sua identidade através da guerra.
E, séculos depois, se transformaria em um dos maiores centros políticos e culturais do mundo antigo.
Quando penso nisso, a imagem dos dois irmãos às margens do Tibre ganha outro significado.
Eles ainda não eram fundadores.
Não eram guerreiros.
Não eram símbolos.
Eram apenas crianças.
Mas, dentro do mito, o futuro de uma cidade inteira já estava esperando por eles.
E talvez seja isso que mais me fascina em Rômulo e Remo: a história começa com duas vidas que deveriam ter sido interrompidas, mas que se transformaram em uma narrativa sobre o nascimento de Roma.
No fim, apenas um dos irmãos sobreviveu.
Mas os dois permaneceram na memória.
E, de certa maneira, Roma continuou carregando os dois.
Rômulo no nome.
Remo na tragédia.
Quer continuar essa história?
A história de Rômulo e Remo é apenas o começo de uma das narrativas de fundação mais fascinantes da Antiguidade. Mas o que existe por trás desse mito? Até que ponto podemos separar a lenda da história? E por que os romanos escolheram contar sua própria origem dessa maneira?
Eu aprofundo essas questões no vídeo “Rômulo e Remo: a verdadeira história por trás do mito de Roma”.
🎬 Assista ao vídeo no YouTube:
Rômulo e Remo: a verdadeira história por trás do mito de Roma
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