
Quando penso em Ali Babá, a primeira coisa que me vem à cabeça é uma frase.
“Abre-te, Sésamo!”
Durante muito tempo, eu imaginei que essa história fosse uma das antigas narrativas árabes preservadas em As Mil e Uma Noites. Afinal, Ali Babá parece pertencer perfeitamente àquele universo: uma caverna cheia de tesouros, quarenta ladrões, uma escrava extremamente inteligente e uma palavra mágica capaz de abrir uma montanha.
Mas existe um problema.
Quando comecei a pesquisar a história de Ali Babá, descobri algo que torna essa narrativa ainda mais fascinante:
Ali Babá não aparece nos manuscritos árabes antigos de As Mil e Uma Noites.
Na verdade, a história que conhecemos hoje só aparece registrada no início do século XVIII.
E isso muda completamente a maneira como eu enxergo esse personagem.
Ali Babá não era originalmente um personagem de As Mil e Uma Noites
As Mil e Uma Noites é uma coleção extremamente complexa, formada por histórias de diferentes origens e épocas. Não existe simplesmente um único livro antigo contendo exatamente as “mil e uma histórias” que conhecemos hoje.
As versões da coleção foram mudando ao longo dos séculos.
E é justamente nesse processo que Ali Babá aparece.
Quando o francês Antoine Galland começou a publicar sua tradução de As Mil e Uma Noites, entre 1704 e 1717, ele não estava simplesmente traduzindo palavra por palavra um manuscrito árabe completo.
Galland tinha acesso a manuscritos incompletos e incorporou outras histórias à sua coleção.
Entre elas estavam algumas das narrativas que se tornariam as mais famosas de todas: Ali Babá e os Quarenta Ladrões e Aladim e a Lâmpada Maravilhosa.
O mais curioso é que essas histórias não aparecem nos manuscritos árabes tradicionais que serviram de base para a coleção.
Foi Galland quem as apresentou ao público europeu.
E é aqui que a história começa a ficar realmente interessante.
Quem contou a história a Galland?
Em 1709, Galland conheceu em Paris um homem chamado Hanna Diyab, um cristão maronita originário de Alepo, na atual Síria.
Diyab era um contador de histórias.
Segundo os registros do próprio Galland, ele contou diversas histórias ao francês.
Entre elas estava a narrativa de Ali Babá.
O diário de Galland registra o encontro e mostra que Diyab contou histórias que posteriormente seriam incorporadas aos últimos volumes de sua obra.
E aqui aparece uma pergunta que eu considero fascinante:
Quem inventou Ali Babá?
Foi Hanna Diyab?
Foi Antoine Galland?
Ou a história já circulava oralmente no Oriente Médio muito antes de chegar a Paris?
A verdade é que não sabemos.
E essa incerteza é justamente uma das coisas que tornam Ali Babá tão interessante.
O homem que talvez tenha sido o verdadeiro autor
Durante muito tempo, Galland recebeu praticamente todo o crédito pelas histórias.
Afinal, foi através de sua publicação francesa que Ali Babá se tornou conhecido na Europa.
Mas existe uma possibilidade diferente.
Talvez Galland não tenha “inventado” Ali Babá.
Talvez ele tenha registrado e transformado literariamente uma história que ouviu de Hanna Diyab.
O problema é que não temos uma versão anterior comprovada que nos permita reconstruir exatamente a origem da narrativa.
Por isso, Ali Babá é frequentemente tratado pelos estudiosos como uma espécie de “história órfã”: uma narrativa cuja fonte original não conseguimos identificar.
E isso é muito diferente de dizer simplesmente que Galland inventou tudo.
O mais correto é reconhecer que não sabemos exatamente de onde veio a história.
A famosa caverna dos quarenta ladrões
A história que chegou até nós é relativamente simples.
Ali Babá é um homem pobre que trabalha como lenhador.
Um dia, enquanto está na floresta, ele presencia algo extraordinário.
Um grupo de ladrões chega diante de uma montanha.
O líder pronuncia uma frase:
“Abre-te, Sésamo!”
A entrada da caverna se abre.
Ali Babá espera os ladrões saírem e então entra.
Lá dentro, encontra uma enorme quantidade de riquezas.
Ele pega parte do tesouro e volta para casa.
O problema é que Ali Babá tem um irmão, Cassim.
E Cassim é rico.
Quando descobre o segredo, ele decide entrar na caverna também.
Mas existe uma diferença entre os dois.
Ali Babá quer apenas levar parte da riqueza.
Cassim quer levar tudo.
E é justamente sua ganância que provoca sua ruína.
A personagem que realmente rouba a cena
Se existe alguém nessa história que considero mais interessante do que Ali Babá, é Morgiana.
Morgiana é apresentada como uma escravizada pertencente à família de Ali Babá.
Mas ela também é extremamente inteligente.
Quando os ladrões descobrem que Ali Babá conhece o segredo da caverna, eles tentam encontrá-lo e matá-lo.
É Morgiana quem percebe os perigos antes dos outros.
Ela identifica os planos dos criminosos, cria estratégias para impedi-los e, em determinado momento, consegue eliminar os próprios ladrões.
Isso é interessante porque, em uma história aparentemente centrada em tesouros e ladrões, quem realmente salva a situação não é o protagonista.
É Morgiana.
E talvez seja por isso que algumas versões antigas do conto deem tanta importância à sua astúcia.
Mas e a famosa marca nas casas?
Uma das partes mais conhecidas da história acontece quando os ladrões tentam localizar a casa de Ali Babá.
Um deles marca a porta da residência.
Morgiana percebe a marca.
Então ela marca várias outras casas da mesma maneira.
Quando os ladrões voltam, não conseguem mais identificar qual era a casa correta.
Eu gosto muito dessa passagem porque ela resume o funcionamento de toda a narrativa.
Os ladrões possuem força.
Possuem armas.
Possuem dinheiro.
Mas Morgiana possui algo diferente:
inteligência.
E é justamente a inteligência que vence.
Então Ali Babá foi uma pessoa real?
Provavelmente não temos como afirmar que Ali Babá tenha sido uma pessoa histórica.
Não existe evidência confiável que permita identificar um personagem histórico específico como o Ali Babá da narrativa.
E isso é importante.
Quando falamos em “história real de Ali Babá”, precisamos tomar cuidado.
A verdadeira história não é a descoberta de que existiu um homem chamado Ali Babá que encontrou uma caverna cheia de ouro.
A verdadeira história é a história de como esse personagem surgiu, foi contado, registrado e transformado em um dos contos mais famosos do mundo.
E essa história é, na minha opinião, muito mais interessante.
Um manuscrito misterioso apareceu séculos depois
Existe ainda uma reviravolta curiosa.
Em 1908, o orientalista Duncan Black Macdonald encontrou na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, um manuscrito árabe contendo uma versão de Ali Babá.
Parecia uma descoberta extraordinária.
Se aquele manuscrito fosse realmente antigo, poderia provar que a história existia em árabe antes de Galland.
Mas a situação ficou muito mais complicada.
Pesquisas posteriores levantaram sérias dúvidas sobre a autenticidade do manuscrito. Estudos importantes defenderam que ele poderia ser uma retradução para o árabe da própria versão francesa de Galland, e não uma fonte independente anterior.
Ou seja:
aquilo que parecia ser a prova de que Ali Babá era uma antiga história árabe poderia, na verdade, ser uma história francesa que havia sido traduzida novamente para o árabe.
É quase como se a própria história tivesse criado uma armadilha para os historiadores.
E onde fica o “Oriente” nessa história?
Essa é uma questão que me interessa particularmente.
Hoje, costumamos imaginar Ali Babá como uma história originalmente árabe.
Mas a trajetória textual que conseguimos documentar é muito mais complicada.
A história que conhecemos foi registrada em francês por Antoine Galland, a partir de uma narrativa atribuída a Hanna Diyab, um contador de histórias de Alepo.
Depois, ela foi traduzida, adaptada, publicada e republicada inúmeras vezes.
Cada nova versão modificou um pouco a narrativa.
E assim, ao longo de três séculos, Ali Babá foi se tornando aquilo que conhecemos hoje.
Isso me faz pensar em como as histórias sobrevivem.
Elas não permanecem congeladas.
Elas viajam.
Mudam de idioma.
Mudam de público.
Mudam de época.
E, às vezes, mudam tanto que já não conseguimos descobrir onde começaram.
A verdadeira riqueza de Ali Babá
Existe uma ironia no fato de a história de Ali Babá ser construída em torno de um tesouro escondido.
Porque o verdadeiro tesouro dessa narrativa talvez não esteja dentro da caverna.
Está na própria história.
Durante séculos, milhões de pessoas ouviram falar de uma montanha que se abre com uma palavra.
Crianças cresceram conhecendo “Abre-te, Sésamo”.
Filmes, desenhos, livros e peças de teatro reinventaram Ali Babá.
E, enquanto tudo isso acontecia, a verdadeira origem da história permanecia escondida.
Assim como o tesouro da caverna.
Quanto mais eu pesquiso Ali Babá, mais percebo que talvez não exista uma única “história real”.
Existe uma cadeia de contadores, tradutores, escritores e leitores.
Existe Hanna Diyab contando histórias em Paris.
Existe Antoine Galland transformando essas histórias em literatura francesa.
Existem traduções posteriores espalhando Ali Babá pelo mundo.
E existem gerações de pessoas que continuam contando a história.
O homem que nunca precisou existir
No final, talvez essa seja a coisa mais curiosa sobre Ali Babá.
Eu não preciso acreditar que ele existiu para considerar sua história verdadeira em outro sentido.
Ali Babá não precisa ter sido um homem real.
Ele existe como personagem.
Existe na literatura.
Existe na memória.
Existe na imaginação de milhões de pessoas.
E talvez seja justamente isso que torna os mitos e os contos populares tão poderosos.
Eles não precisam necessariamente registrar aquilo que aconteceu.
Às vezes, eles registram aquilo que as pessoas queriam contar.
E, no caso de Ali Babá, uma história que talvez tenha começado na tradição oral de um lugar que nunca conseguiremos identificar completamente acabou atravessando séculos, idiomas e continentes.
Tudo começou com uma caverna.
Um tesouro.
Quarenta ladrões.
E uma frase.
Abre-te, Sésamo.
Mas, quando eu abro essa história e olho para dentro, encontro algo muito mais interessante do que ouro.
Encontro uma pergunta:
quantas das histórias que acreditamos serem antigas são, na verdade, histórias que foram reinventadas ao longo do caminho?
E talvez essa seja a verdadeira caverna de Ali Babá.
A história por trás da história.
Quer conhecer mais sobre Ali Babá?
Se essa história despertou sua curiosidade, eu preparei um vídeo para aprofundar ainda mais o assunto e explorar as origens de Ali Babá, dos Quarenta Ladrões e de toda essa tradição de histórias que atravessou séculos.
🎬 Assista ao vídeo no YouTube:
Ali Babá — a história por trás do mito
Se você gosta de descobrir o que existe por trás dos grandes mitos, lendas e histórias que aprendemos desde a infância, vale a pena conferir o vídeo.
Às vezes, a parte mais fascinante de uma história não é aquilo que ela conta.
É descobrir como ela chegou até nós.

