Como nasce a tensão em uma história?

A couple skillfully performing tango in a stylish living room setting.

Uma das coisas que mais gosto de perceber enquanto escrevo é aquele momento em que o leitor sabe que alguma coisa vai acontecer, mas ainda não sabe exatamente o quê.

Para mim, é aí que a tensão começa.

Não é necessariamente uma perseguição.

Não precisa existir uma morte.

Nem mesmo é preciso que alguma coisa assustadora esteja acontecendo naquele momento.

Às vezes, basta uma pergunta sem resposta.

Uma porta que não deveria estar aberta.

Uma pessoa que está escondendo alguma coisa.

Uma personagem que sabe mais do que está dizendo.

O leitor percebe que existe um problema e continua lendo porque precisa descobrir o que vai acontecer.

É esse tipo de expectativa que tento construir nos meus contos.

Tensão não é a mesma coisa que ação

Essa é uma diferença que considero importante.

Uma história pode ter muita ação e pouca tensão.

Um personagem pode correr, lutar, gritar e fugir durante várias páginas e, ainda assim, o leitor não estar realmente preocupado com o que vai acontecer.

A tensão depende mais da expectativa do que da quantidade de acontecimentos.

Imagine uma personagem parada em um quarto, olhando para uma porta fechada.

Nada está acontecendo.

Mas sabemos que existe alguma coisa do outro lado.

Ela também sabe.

Só não sabe exatamente o quê.

Essa situação pode ter mais tensão do que uma perseguição inteira.

Por quê?

Porque existe uma pergunta.

O que está atrás da porta?

Enquanto o leitor quiser descobrir a resposta, existe uma razão para continuar lendo.

Comece criando uma pergunta

Quando penso em uma cena que precisa prender o leitor, gosto de procurar uma pergunta.

Pode ser uma pergunta grande:

“Quem matou aquela pessoa?”

“Por que a cidade está vazia?”

“O que aconteceu naquela casa?”

Mas também pode ser algo muito menor:

“Por que ela está olhando para a janela?”

“Quem mandou essa mensagem?”

“Por que aquela porta está aberta?”

“Por que ele não quer entrar naquele quarto?”

Não preciso responder imediatamente.

Na verdade, muitas vezes é melhor não responder.

A pergunta funciona como uma pequena promessa.

O leitor continua porque quer saber a resposta.

Dê ao leitor uma informação que o personagem não tem

Essa é uma das formas mais clássicas de criar tensão.

Imagine que uma personagem esteja sozinha em casa.

Ela recebe uma mensagem:

“Não abra a porta.”

Ela não sabe quem enviou.

Pouco depois, alguém bate.

O leitor sabe que a mensagem existe.

A personagem sabe que alguém está batendo.

Mas nós ainda não sabemos quem está do outro lado.

A tensão nasce dessa combinação de informações incompletas.

O leitor começa a imaginar possibilidades.

E, quanto mais tempo a porta permanecer fechada, mais forte pode ficar a expectativa.

Mas cuidado para não transformar tudo em segredo

Se absolutamente tudo for misterioso, nada será realmente misterioso.

Esse é um problema que pode acontecer quando tentamos criar tensão à força.

O personagem não explica nada.

O narrador não explica nada.

As pessoas falam de maneira enigmática.

Tudo parece esconder alguma coisa.

Depois de algum tempo, o leitor pode simplesmente se cansar.

Eu prefiro trabalhar com informações concretas e deixar apenas algumas lacunas.

O leitor precisa entender o suficiente para se importar.

A tensão nasce justamente daquilo que ele ainda não sabe.

Dê alguma coisa para o personagem perder

Uma ameaça só ganha força quando existe alguma coisa em jogo.

Pode ser a vida.

Mas não precisa ser.

Pode ser:

  • uma amizade;
  • um relacionamento;
  • uma casa;
  • um segredo;
  • a reputação;
  • a liberdade;
  • uma memória;
  • uma oportunidade;
  • a própria identidade.

Quanto mais importante for aquilo que está ameaçado para o personagem, mais o leitor terá motivos para se preocupar.

Imagine uma escritora que descobre que alguém está roubando seus textos.

Isso já é um problema.

Agora imagine que ela perceba que os textos roubados são capítulos de um livro que ainda não publicou.

E que os capítulos estão sendo publicados por outra pessoa antes dela.

Agora existe uma pergunta:

como essa pessoa conseguiu os textos?

A situação ficou mais tensa sem precisar de violência.

O relógio é uma ferramenta poderosa

Outra maneira de construir tensão é criar uma limitação de tempo.

O personagem precisa fazer alguma coisa antes que determinado momento chegue.

Pode ser:

“Preciso sair daqui antes da meia-noite.”

“Tenho dez minutos para encontrar minha irmã.”

“Se ele descobrir antes que eu conte, tudo estará perdido.”

O tempo cria pressão.

Mas não é preciso colocar um relógio literalmente na cena.

Uma contagem regressiva pode ser emocional.

Uma reunião vai acontecer.

Uma pessoa está chegando.

Uma tempestade está se aproximando.

O ônibus vai partir.

O personagem vai perder a oportunidade.

O segredo será descoberto.

O importante é que exista a sensação de que não é possível esperar para sempre.

Não entregue a resolução rápido demais

Quando crio uma situação de tensão, uma das coisas que preciso controlar é minha vontade de resolver.

Imagine que o personagem ouça passos no corredor.

Ele abre a porta.

Não há ninguém.

Fim da tensão.

Se a história precisa continuar, talvez seja interessante prolongar um pouco mais.

Ele fecha a porta.

Os passos voltam.

Dessa vez, estão mais próximos.

Ele olha pela janela.

Nada.

O som para.

Silêncio.

Então alguém bate dentro do quarto.

Agora a situação mudou.

A tensão cresceu porque a primeira resposta não resolveu o problema.

Ela criou outro.

Faça cada resposta gerar uma nova pergunta

Essa é uma estrutura que gosto bastante.

O leitor tem uma pergunta.

Você responde parcialmente.

A resposta cria outra pergunta.

Por exemplo:

Quem está ligando?

Descobrimos que é o irmão desaparecido.

Então surge:

Como ele conseguiu ligar?

Descobrimos que o telefone dele foi encontrado três anos antes.

Então surge:

Quem está usando o telefone?

Cada resposta empurra a história para frente.

Isso cria movimento sem exigir que alguma coisa extraordinária aconteça em todas as cenas.

Use pequenas pistas

No terror, gosto especialmente das pequenas pistas.

Uma fotografia.

Uma frase.

Um objeto.

Uma mudança na rotina.

Um detalhe no cenário.

Uma lembrança aparentemente sem importância.

Na primeira leitura, o leitor pode nem perceber.

Depois, quando a verdade aparece, ele entende.

“Então era por isso.”

Esse tipo de construção faz com que o final pareça preparado.

A tensão não começa apenas na revelação.

Ela está sendo construída muito antes dela.

O silêncio pode aumentar a tensão

Às vezes, queremos escrever uma cena tensa e colocamos diálogo demais.

Todo mundo explica o que está acontecendo.

Todo mundo pergunta.

Todo mundo responde.

Mas uma pausa pode fazer muito mais.

Imagine:

— Você entrou naquele quarto?

Ela não respondeu.

— Eu fiz uma pergunta.

Ela continuou olhando para a janela.

— Você entrou?

Depois de alguns segundos, ela disse:

— Não sozinha.

Agora existe uma informação.

Mas também existe uma pergunta maior.

Quem estava com ela?

O silêncio criou espaço para o leitor imaginar.

Não diga ao leitor que ele deveria estar com medo

Essa é uma regra que tento lembrar principalmente quando escrevo terror.

Frases como:

“Ela ficou muito assustada.”

“Ele sentiu um medo terrível.”

“Foi a coisa mais assustadora que já tinha visto.”

podem funcionar.

Mas, muitas vezes, é mais interessante mostrar.

Ela segurou a maçaneta e percebeu que sua mão estava tremendo.

Tentou chamar alguém.

Nenhuma palavra saiu.

Olhou para o corredor.

A luz estava acesa.

Ela tinha certeza de que havia apagado antes de dormir.

O leitor entende.

Não precisei dizer:

“Ela estava com medo.”

O ambiente também pode carregar tensão

Não pense apenas no que os personagens fazem.

Pense no lugar onde eles estão.

Um corredor estreito.

Uma casa silenciosa.

Um ônibus quase vazio.

Uma igreja depois do horário.

Um hospital durante a madrugada.

Uma estrada sem iluminação.

Mas o cenário não precisa ser naturalmente assustador.

Um supermercado cheio de pessoas também pode ser uma excelente cena de tensão.

Imagine um personagem procurando alguém entre dezenas de pessoas.

Ele sabe que a pessoa está ali.

Mas não consegue encontrá-la.

Então percebe que todas as pessoas ao redor estão olhando para ele.

O lugar continua sendo um supermercado.

Mas agora existe alguma coisa errada.

O ambiente ajuda a construir a sensação.

Use o contraste

Uma técnica que gosto bastante é colocar tensão em situações tranquilas.

Uma família janta.

Tudo parece normal.

Alguém conta uma piada.

Todos riem.

Então uma criança pergunta:

“Por que aquela mulher está sentada na cadeira vazia?”

Ninguém responde.

O jantar continua.

Esse contraste pode ser muito poderoso.

Se toda cena já começa assustadora, o leitor se acostuma.

Quando existe normalidade antes do problema, a ruptura chama muito mais atenção.

Personagens também podem esconder informações

Uma personagem que sabe algo que o leitor não sabe pode criar tensão.

Mas é importante que exista uma razão para ela esconder.

Talvez esteja com vergonha.

Talvez queira proteger alguém.

Talvez esteja mentindo.

Talvez tenha medo das consequências.

Talvez nem saiba exatamente o que descobriu.

O segredo precisa estar relacionado à história.

Se a personagem simplesmente esconde informação porque o autor precisa manter o mistério, o leitor pode perceber a manipulação.

Eu prefiro quando o segredo também é um conflito para quem o carrega.

A tensão pode existir entre duas pessoas

Não precisamos sempre colocar uma ameaça sobrenatural.

Duas pessoas conversando podem produzir muita tensão.

Imagine que uma personagem descubra que sua melhor amiga mentiu.

Ela sabe que houve uma mentira.

A amiga sabe que ela sabe.

Mas nenhuma das duas fala sobre isso.

Elas continuam conversando normalmente.

Perguntam sobre o trabalho.

Comentam o jantar.

Falam sobre o clima.

Mas existe uma coisa enorme no meio da conversa.

O leitor sabe.

As personagens sabem.

E todo mundo está esperando o momento em que alguém vai tocar no assunto.

Isso é tensão.

Não faça todos os conflitos explodirem imediatamente

Às vezes, a tensão fica mais interessante quando o conflito demora para aparecer.

Uma personagem percebe alguma coisa estranha.

Não fala.

No dia seguinte, percebe outra.

Também não fala.

Depois encontra uma terceira pista.

Começa a investigar.

Enquanto isso, sua relação com outra pessoa muda.

A tensão vai crescendo em camadas.

Quando finalmente acontece uma confrontação, ela possui um peso muito maior porque o leitor passou um tempo esperando por ela.

Faça o leitor saber que algo vai acontecer

Uma das coisas mais interessantes na narrativa é quando o leitor percebe uma ameaça antes do personagem.

Imagine uma personagem entrando em uma casa.

O leitor acabou de descobrir que alguém está escondido lá.

A personagem não sabe.

Ela entra.

Fecha a porta.

Coloca a bolsa sobre a mesa.

Vai até a cozinha.

O leitor está esperando.

Ela abre o armário.

Nada.

Vai para o quarto.

Nada.

Cada ação banal fica carregada de expectativa.

O leitor não está necessariamente esperando um susto.

Está esperando a descoberta.

Essa espera é tensão.

E às vezes o que esperamos não acontece

Também gosto de brincar com a expectativa.

O leitor acredita que algo acontecerá.

Não acontece.

Isso pode ser uma maneira de aliviar a tensão.

Mas o alívio não precisa significar que o perigo desapareceu.

A personagem verifica o quarto.

Não encontra ninguém.

Respira aliviada.

Volta para a sala.

E percebe que deixou a porta da frente aberta.

Agora existe outro problema.

O importante é não transformar isso em uma sequência infinita de “quase”.

Se toda página termina com:

“Mas então…”

“Ela não sabia que…”

“Algo terrível estava prestes a acontecer…”

o efeito pode ficar artificial.

A tensão precisa nascer da situação, não apenas de frases anunciando que alguma coisa importante está chegando.

O que acontece depois também importa

Quando uma cena tensa termina, suas consequências precisam existir.

Se o personagem descobre algo terrível e, na cena seguinte, está tomando café tranquilamente sem que aquilo tenha causado nenhuma mudança, a tensão desaparece.

O acontecimento precisa deixar uma marca.

Talvez ele mude uma decisão.

Talvez destrua uma relação.

Talvez gere uma nova investigação.

Talvez faça o personagem perceber que estava errado.

Talvez piore o problema.

Uma boa cena de tensão não deveria simplesmente terminar.

Ela deveria alterar a situação.

Como revisar a tensão de um conto

Quando reviso um conto, tento observar a tensão cena por cena.

Pergunto:

O que o personagem quer nesta cena?

O que está impedindo que ele consiga?

O que o leitor sabe que o personagem ainda não sabe?

Existe alguma pergunta em aberto?

Existe alguma coisa em risco?

A cena muda alguma coisa?

A tensão aumenta, diminui ou permanece exatamente igual?

Se todas as cenas possuem exatamente o mesmo nível de tensão, talvez o conto fique cansativo.

Precisamos de momentos de descanso.

Precisamos de silêncio.

Precisamos de normalidade.

A tensão funciona melhor quando existe contraste.

Uma estrutura simples que pode ajudar

Se eu estivesse planejando um conto hoje, poderia pensar em uma estrutura bastante simples:

1. Algo está errado.

O leitor percebe uma pequena anormalidade.

2. O personagem tenta ignorar ou resolver.

Ele acredita que existe uma explicação.

3. A situação piora.

Surge uma nova informação.

4. O personagem descobre que o problema é maior.

Agora existe alguma coisa realmente em jogo.

5. As opções diminuem.

Ele não pode simplesmente voltar à situação inicial.

6. A decisão acontece.

O personagem precisa fazer alguma coisa.

7. A consequência chega.

A decisão muda a história.

Isso não é uma fórmula obrigatória.

É apenas uma maneira de visualizar o crescimento do conflito.

Tensão não significa manter o leitor nervoso o tempo inteiro

Essa talvez seja a coisa mais importante.

Eu não quero que um conto seja uma sequência de momentos intensos.

Quero que o leitor tenha vontade de continuar.

Às vezes, ele continua porque quer descobrir quem está atrás da porta.

Às vezes, porque quer saber se determinada pessoa está mentindo.

Às vezes, porque quer entender uma memória.

Às vezes, porque quer descobrir o que aconteceu com alguém.

A tensão nasce dessa expectativa.

E expectativa não precisa ser barulhenta.

Ela pode ser silenciosa.

Pode estar em uma conversa.

Em um olhar.

Em um objeto.

Em uma frase.

Em uma porta fechada.

Ou simplesmente na sensação de que alguma coisa não está certa.

No fim, tensão é fazer o leitor esperar

Para mim, construir tensão é aprender a controlar a informação.

Não esconder tudo.

Não revelar tudo.

Entregar o suficiente para despertar uma pergunta e, depois, criar motivos para o leitor continuar procurando a resposta.

É fazer o leitor pensar:

“E agora?”

E, quando ele finalmente descobre a resposta, outra pergunta aparece.

É assim que uma história continua avançando.

Não porque o autor está constantemente colocando explosões, mortes ou reviravoltas.

Mas porque existe alguma coisa que ainda não foi resolvida.

E enquanto essa coisa continuar importando para o leitor, ele vai querer virar a próxima página.

Referências

ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Editora 34, 2015.

CARROLL, Noël. The Philosophy of Horror, or Paradoxes of the Heart. New York: Routledge, 1990.

ECO, Umberto. Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. São Paulo: Perspectiva, 2004.

FORSTER, E. M. Aspects of the Novel. London: Edward Arnold, 1927.

MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiros. Curitiba: Arte & Letra, 2006.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2017.

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