A noite havia caído com uma calma inquietante. O pescador, Abel, já havia completado a maioria de seus serviços diários, mas algo o atraía para a margem do rio. O céu estava fechado, sem estrelas, e a lua mal se fazia visível entre as nuvens pesadas. Ele sabia que não deveria sair, mas havia uma sensação estranha, uma sensação que o puxava para a água.
Ele pegou sua vara de pescar e se aproximou da beira do rio, onde a água estava calma, mas escura. O murmúrio suave da correnteza parecia encobrir qualquer outro som, tornando o ambiente ainda mais sombrio. Abel se ajoelhou perto da água, lançando a linha com a esperança de pescar algo que pudesse melhorar sua sorte. No entanto, não foi o som de um peixe mordendo a isca que o trouxe de volta à realidade.
A água começou a borbulhar ao redor da linha, e um leve puxão se fez sentir. Abel ajustou a vara, acreditando ser apenas mais um peixe, mas o movimento se intensificou. Algo estava errado. Era forte demais, pesado demais. Ele tentou puxar a linha para cima, mas a resistência parecia crescer. Como se algo do fundo o estivesse segurando, impedindo que o levasse.
E então, algo emergiu das águas.
Primeiro, um braço. Envolto por escamas, tão pálido que parecia refletir a luz da lua, mas com uma textura repulsiva, quase como a de uma pele macabra. Abel recuou, seus olhos arregalados em choque, enquanto o braço se arrastava até a beira da água. Era como se a criatura estivesse tentando sair do rio, e, a cada movimento, uma parte de seu corpo se tornava visível.
A cabeça da criatura surgiu em seguida. Grande, com olhos dilatados e completamente negros, sem íris, sem pupilas. A pele era translúcida, com veias visíveis, pulsando como se algo estivesse se alimentando de sua própria energia. Um sorriso torto se formou nos lábios finos da criatura, e Abel sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
O pescador, em pânico, tentou correr, mas algo o puxou de volta, a água parecia ter vida própria, envolvendo seus tornozelos, segurando-o no lugar. Ele olhou para trás e viu a criatura emergir completamente, sua forma grotesca agora visível. O corpo era longo e esquelético, mas com garras afiadas, os dedos desproporcionais, prontos para rasgar qualquer coisa ao seu alcance. Abel tentou gritar, mas sua garganta estava seca, a sensação de terror o imobilizava.
A criatura olhou para ele com uma intensidade que parecia atravessar sua alma, como se o estivesse avaliando, ponderando sua próxima ação. Abel, tentando se livrar do pânico que o paralisava, deu um passo para trás, tentando se afastar, mas o puxão da água o manteve ali.
Foi então que a criatura falou, sua voz grave, quase como um sussurro, mas cheia de um poder ameaçador.
— Você me trouxe para cá, pescador. Agora, você será meu.
Abel sentiu uma dor aguda no peito, como se o ar estivesse sendo retirado de seus pulmões. Ele olhou para o horizonte, em busca de ajuda, mas tudo o que viu foi a escuridão da noite, engolindo-o. A criatura avançou, seus olhos hipnotizantes nunca se desviando de sua presa, até que, com um movimento rápido, envolveu sua mão ao redor do pescador.
A água começou a subir, cobrindo suas pernas, então sua cintura, e em um instante, ele já estava submerso. A criatura o segurava firmemente, com garras que perfuravam sua carne e arrancavam qualquer resistência que ele pudesse oferecer. O pescoço de Abel foi imobilizado, e ele sentiu a pressão da água apertando seus pulmões.
Enquanto a escuridão o envolvia completamente, o pescador percebeu que já não estava mais sozinho. Algo o observava, algo que não era humano. Algo que havia estado ali, nas profundezas, esperando o momento certo para surgir.
Mas a criatura não estava interessada em matar de imediato. Não. Ela desejava algo pior. Algo que iria lentamente consumir sua mente e sua alma, puxando-o para as profundezas, onde ele seria uma parte de algo maior, algo monstruoso, para sempre.
Abel, agora submerso, sentiu seu corpo se afundar mais fundo na água, e então, a criatura sussurrou mais uma vez, como uma promessa cruel:
— Você será minha ferramenta. E juntos, vamos caçar os outros.
A água o envolveu por completo. E tudo o que restou foi a escuridão.

