O cirurgião

A sala de cirurgia estava fria. As luzes brancas cegavam, e o barulho constante das máquinas preenchia o ambiente com uma melodia pontual. Rafael sentia o corpo pesado, afundando na mesa enquanto os anestésicos faziam efeito. Tudo estava lento, embaçado.

Ele observou o cirurgião inclinar-se sobre ele, o rosto escondido pela máscara cirúrgica, os olhos brilhando sob o reflexo das lâmpadas estéreis. A voz dele era calma e distante.

— Vamos começar.

Então, algo mudou. O teto da sala pareceu se alongar, como se estivesse se afastando dele. O ar ficou espesso, difícil de respirar. Os assistentes, antes humanos, tornaram-se vultos escuros, sombras com movimentos suaves demais, deslizantes. Rafael quis falar, mas sua boca não respondia.

O cirurgião pegou o bisturi, e, por um instante, Rafael viu algo que não deveria estar ali. Sob a máscara, a pele se retraiu, como se um outro rosto estivesse tentando emergir. Os olhos, antes humanos, tornaram-se vazios, negros como carvão queimado. A voz dele ficou diferente—mais baixa, arrastada, como se fosse falada por muitas bocas ao mesmo tempo.

— Você já sentiu sua alma ser tocada?

Rafael tentou se mover, tentou gritar, mas o corpo não respondia. O bisturi desceu e, em vez de dor, ele sentiu algo se abrir dentro dele. Algo profundo, além da carne. O ar ficou denso, carregado de um cheiro de metal quente e podridão. O médico não cortava apenas seu corpo—ele estava arrancando algo além disso.

Ele viu rostos. Milhares deles. Pessoas presas na sombra do teto, sussurrando, com olhos opacos. Algumas choravam. Outras gritavam. Eram pacientes? Eram ecos de vidas devoradas?

A sala girou, e, então, silêncio.

Quando Rafael acordou, estava em um quarto de hospital. O sol entrava pela janela, e o som distante de conversas e passos preenchia o corredor. Ele estava inteiro. Vivo.

A enfermeira sorriu.

— A cirurgia foi um sucesso. O doutor já veio vê-lo mais cedo.

Ele tentou lembrar. Viu apenas imagens desconexas. O rosto do médico. O bisturi. Os olhos vazios.

— O doutor… ele… — A garganta estava seca.

— O doutor Souza? — A enfermeira franziu a testa. — Ele é um ótimo cirurgião, tem mãos de ouro. Você teve alguma alucinação por causa da anestesia? Isso acontece.

Alucinação. Sim. Só poderia ser isso.

Mas quando olhou para o criado-mudo ao lado da cama, algo gelou sua espinha. Uma pequena cicatriz marcava seu peito, no exato ponto onde ele sentiu algo ser arrancado.

E, pela primeira vez em sua vida, Rafael se sentiu… vazio.

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