Close-up of a person in a striking devil costume outdoors in Mexico City, showcasing vivid makeup and theatrical elements.

O artista como demônio: por que a criação precisa transgredir?

Existe alguma coisa de incômoda na figura do artista.

Talvez porque o artista tenha o hábito de olhar para aquilo que todos já aceitaram e perguntar: e se não fosse assim?

Ele olha para uma parede e imagina uma porta. Olha para um corpo e encontra uma forma. Olha para uma palavra e percebe que ela pode significar outra coisa. Olha para uma tradição e, em vez de simplesmente recebê-la, decide mexer nela.

Criar é, de alguma maneira, não aceitar completamente o mundo que recebemos.

Foi pensando nisso que encontrei em William Blake uma imagem que me parece cada vez mais interessante: a do artista como uma espécie de demônio.

Em O Matrimônio do Céu e do Inferno, Blake brinca justamente com essa inversão. Aquilo que tradicionalmente chamamos de Inferno passa a carregar algumas das coisas que tornam possível a criação: energia, desejo, movimento, excesso. Do outro lado está a razão quando transformada em controle, em regra, em obediência. Para Blake, nenhum dos dois existe sozinho. “Sem Contrários não há progresso.”

Talvez a arte seja justamente o lugar onde esses contrários se encontram.

Porque o artista precisa de alguma coisa que o incomode.

Não necessariamente uma revolta. Às vezes é apenas uma sensação estranha de que aquilo que existe não é suficiente.

É difícil imaginar uma obra realmente nova nascendo de alguém completamente satisfeito com todas as formas que já existem. Se tudo já estivesse pronto, por que criaríamos?

Talvez por isso a história da arte seja também uma história de desobediências.

Alguém decidiu pintar aquilo que não deveria ser pintado. Alguém resolveu colocar no centro da obra aquilo que deveria permanecer à margem. Alguém deformou o corpo humano. Alguém abandonou a perspectiva. Alguém pintou de uma maneira que parecia errada. Alguém escreveu sobre aquilo que não deveria ser dito.

E quase sempre existe, nesse processo, alguém dizendo que aquilo não é arte.

É curioso como essa frase aparece tantas vezes quando uma forma nova surge.

Como se a arte tivesse um território cercado e alguém precisasse decidir quem pode entrar.

Mas quem construiu essa cerca?

E quem decidiu que ela deveria existir?

Talvez uma das funções mais bonitas da arte seja justamente destruir, de vez em quando, algumas dessas cercas.

Não porque toda regra seja ruim. Não porque toda transgressão seja automaticamente boa. Mas porque nenhuma regra deveria ser confundida com uma verdade eterna.

Blake parece compreender isso quando transforma o próprio Demônio em uma figura de oposição. Ele não está simplesmente dizendo que o mal é bom. Está perguntando quem teve o direito de definir o que é o mal.

Essa pergunta muda tudo.

Porque aquilo que chamamos de loucura, pecado, vulgaridade, excesso ou desordem pode depender muito mais do lugar de onde estamos olhando do que gostaríamos de admitir.

O artista conhece essa experiência.

Talvez não seja por acaso que Blake diga que Milton escrevia com mais liberdade quando escrevia sobre os Demônios e o Inferno. Para Blake, havia alguma coisa na imaginação de Milton que escapava das regras que o próprio poeta parecia defender.

É uma ideia bonita: talvez o artista nem sempre consiga controlar completamente aquilo que sua própria arte revela.

A obra pode ser mais livre do que o seu criador.

E talvez seja justamente aí que exista uma das maiores forças da arte.

Quando criamos, colocamos no mundo alguma coisa que pode escapar de nós. Uma imagem pode adquirir significados que nunca imaginamos. Um poema pode dizer a alguém algo que não sabíamos que estava escrito nele. Uma pintura pode ser vista de uma maneira que contradiz completamente a intenção de quem a produziu.

A arte começa nas mãos do artista, mas não termina nelas.

Por isso, talvez criar seja também aceitar uma pequena perda de controle.

E isso é assustador.

Estamos acostumados a pensar que controlar é uma forma de segurança. Queremos saber o significado, prever a reação, explicar a obra, definir o que ela representa.

Mas talvez exista arte justamente onde a explicação começa a falhar.

Blake escreve que “tudo o que é possível de ser imaginado é uma imagem da verdade”.

Gosto dessa ideia porque ela devolve à imaginação uma importância que muitas vezes esquecemos.

Imaginar não é fugir da realidade.

Às vezes, é a primeira maneira de modificá-la.

Antes de existir uma nova forma de arte, alguém precisou imaginá-la. Antes de uma ideia ser aceita, alguém precisou pensar nela quando ainda parecia absurda. Antes de uma sociedade mudar, alguém precisou conseguir imaginar uma sociedade diferente.

Talvez seja por isso que a imaginação seja tão perigosa.

Ela mostra que o mundo poderia ser diferente.

E poucas coisas são mais perturbadoras para uma ordem estabelecida do que descobrir que aquilo que parecia inevitável era apenas uma possibilidade.

O artista vive nesse espaço.

Entre o que existe e o que poderia existir.

Entre a tradição e a ruptura.

Entre aquilo que aprendeu e aquilo que sente necessidade de fazer.

Talvez seja por isso que o artista não precise ser um rebelde o tempo inteiro. Ele não precisa destruir tudo. Não precisa escandalizar. Não precisa transformar cada obra em uma declaração política.

Às vezes, basta olhar de outra maneira.

Uma pintura pode ser transgressora simplesmente porque nos faz perceber alguém que nunca havíamos enxergado.

Uma fotografia pode ser transgressora porque encontra beleza onde ninguém procurava.

Um romance pode ser transgressor porque leva a sério uma vida que sempre foi tratada como insignificante.

Uma obra pode romper uma regra sem sequer mencionar a regra.

Talvez a verdadeira transgressão artística seja essa: fazer o que parecia impossível parecer natural depois que alguém conseguiu fazê-lo.

E então aquilo que um dia foi chamado de estranho passa a fazer parte da história.

Aquilo que parecia absurdo vira referência.

Aquilo que parecia errado passa a ensinar uma nova maneira de olhar.

Talvez seja por isso que o artista precise carregar dentro de si um pequeno demônio.

Não um demônio interessado em destruir por destruir.

Mas aquele que pergunta.

Aquele que desconfia.

Aquele que olha para uma porta fechada e pensa que talvez exista outra maneira de entrar.

Aquele que não aceita que uma resposta seja definitiva apenas porque foi repetida muitas vezes.

Aquele que tem coragem de dizer: e se não?

No fundo, talvez seja isso que Blake esteja nos lembrando quando afirma que “a Oposição é a verdadeira Amizade”.

Precisamos daquilo que nos contradiz.

O artista precisa disso.

A arte precisa disso.

Porque sem oposição não existe movimento. Sem dúvida, não existe descoberta. Sem imaginação, não existe possibilidade. E sem a coragem de ultrapassar aquilo que já conhecemos, talvez não exista criação.

Talvez o verdadeiro oposto da arte não seja o feio.

Nem o profano.

Nem o erro.

Talvez seja a obediência.

Porque a arte começa exatamente no momento em que alguém olha para o mundo e, em vez de simplesmente aceitá-lo, decide imaginá-lo de outra maneira.

Referências

BLAKE, William. The Marriage of Heaven and Hell. London: Oxford University Press, 1975.

BLAKE, William. The Complete Poetry and Prose of William Blake. Edited by David V. Erdman. Berkeley: University of California Press, 1982.

BERGER, John. Modos de ver. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2013.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.

RANCIÈRE, Jacques. O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

WOLLSTONECRAFT, Mary. A Vindication of the Rights of Woman. London: Penguin Books, 2004.

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