A Última Escolha

 O som da chuva batendo na janela era constante, mas o grito de sua filha ecoava muito mais alto dentro de sua cabeça.

Carlos estava preso, de olhos vendados e mãos amarradas, mas ainda podia sentir a presença do assassino à sua volta. Ele sabia o que estava por vir, e a dor de saber o que seria forçado a fazer o consumia por dentro.

O homem estava atrás dele, falando calmamente, como se estivesse explicando uma lição. Mas Carlos não conseguia entender nada, não mais. Ele estava em choque, e seu corpo parecia não responder.

— Você fez algo horrível, policial. Eu vou te dar uma chance de redenção. Uma última escolha. — A voz do assassino era suave, quase gentil. — Você vai matar sua filha. Ela está aí fora, esperando por você. É a única forma de sair vivo. Se você não fizer isso, vai morrer aqui. —

Carlos respirou com dificuldade. Ele não conseguia pensar direito. Sua mente estava em frangalhos. Mas as palavras do assassino estavam claras como cristal. Ele sabia que, se fizesse o que o homem mandava, sairia vivo. Ele poderia finalmente escapar.

Mas algo dentro dele, uma consciência adormecida, começou a acordar. Ele olhou para baixo, para a corda que prendia suas mãos, e então lembrou. Lembrou da esposa que ele matou, em um ato de ódio e racismo. Lembrou que havia sido policial, deveria proteger as pessoas, não ser a ameaça. Mas, então, ele se lembrou do porquê estava ali. O assassino na sua frente. O crime. A vingança.

Sua filha estava fora, esperando. Ela não tinha nada a ver com isso.

A voz do assassino o interrompeu novamente, mais ameaçadora agora:

— Você vai fazer isso, policial, ou vai morrer junto com ela.

Carlos sentiu o suor escorrer pela testa. Seu estômago estava virado, seus olhos lacrimejando. Ele sabia que se não fizesse o que o homem queria, sua filha morreria de qualquer jeito. A opção era clara: matar ou ser morto.

O assassino havia planejado isso com perfeição. Ele o havia levado ao limite, e Carlos sabia que não havia mais escapatória. A dor em seu peito se tornava cada vez maior à medida que ele ouvia a respiração da filha do outro lado da porta, esperando pelo pai, esperando por ajuda.

Então, com uma decisão amarga e incompreensível, ele foi até ela.

A menina estava sentada no sofá, seus olhos brilhando com esperança, esperando que o pai a libertasse. Ela não sabia o perigo que corria, para ela, não havia mais perigo, pois seu amado pai. Não sabia do mal que estava prestes a se concretizar.

Carlos se ajoelhou diante dela, as mãos trêmulas, o peso do mundo sobre os ombros. Ele olhou para ela, como se procurasse uma maneira de explicar, de pedir perdão por tudo o que ele havia feito. Mas ele não podia. Ele não podia mais voltar atrás.

Com um último suspiro, ele ergueu a faca.

O assassino observava tudo, a satisfação estampada em seu rosto. Era uma brincadeira cruel, mas perfeita.

A faca cortou o ar.

O som do impacto foi seco e final.

Mas no momento em que a faca tocou o pescoço da criança, a casa foi invadida pela polícia. O som das botas pesadas nos degraus, as ordens sendo gritos na noite, e então, os policiais correram até a sala.

Carlos olhou para eles, com a lâmina ainda na mão, a menina já caída, os olhos sem vida.

Tudo foi em vão.

Ele havia matado sua filha, mas não precisava. A polícia tinha chegado a tempo. Ele não precisava fazer isso.

Seu corpo tremeu, e a lâmina escorregou de suas mãos, caindo no chão com um som metálico.

Ele havia condenado sua própria filha, por nada.

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