
A luz pálida da manhã mal roçava as colunas de mármore do salão imenso, onde o silêncio parecia sagrado. Lady Mirabelle despertava como fazia todas as manhãs — envolta em névoa e luxúria. Sua cama, feita de seda negra e brocados dourados, parecia não ter sido feita para mortais. Quando ela se erguia, o fazia com a delicadeza solene de uma rainha ancestral, os pés descalços encontrando o chão frio como se o próprio castelo a reconhecesse.
Diante do espelho de moldura dourada, ela se observava. Tocava a própria imagem com dedos pálidos, como quem contempla uma relíquia perdida. Os cabelos negros caíam como véu, os olhos rubros brilhavam sob a penumbra. Não havia vaidade — apenas constatação. Ela era perfeita, e sabia disso. Mas havia algo de exausto em seu reflexo, como se a eternidade começasse a pesar.
No salão reservado, iniciava-se o ritual. Seres curvados, deformados e mudos a serviam em silêncio. Nenhum toque era casual, nenhum gesto deixado ao acaso. Enquanto banhavam sua pele com unguentos antigos, ela já não estava ali. Sua mente vagava por corredores mais profundos que os de pedra — onde habitavam planos, lembranças e presságios.
O castelo era um organismo vivo, pulsando sob suas ordens. Espelhos antigos cobriam as paredes, como olhos que tudo viam. Tapeçarias escondiam portas e feridas. Gritos abafados vinham das profundezas, como um lamento que ecoava eternamente — mas Mirabelle já não os ouvia. Eles eram parte do mobiliário.
Após o banho gélido no poço secreto, ela descia ao salão de tortura. Hoje, uma mulher jovem. Cabelos escuros, pele que ainda guardava traços de esperança. Os gritos, no entanto, não lhe despertavam prazer. Não mais. Havia um cansaço meticuloso em seus gestos. Cada corte era preciso, mas ausente de emoção.
Ela não fazia aquilo por prazer. Fazia porque o castelo exigia. Porque o mundo dela se sustentava sobre a dor alheia. Mas naquela manhã, enquanto observava a vida escapar da jovem, algo dentro dela… vacilou. Por um segundo, uma sombra de desinteresse lhe cruzou o olhar. Não havia arte naquela morte. Apenas rotina.
Mirabelle suspirou, como quem fecha um livro lido vezes demais. Tocou o ombro da vítima já sem vida — um gesto quase de piedade — e ordenou que a levassem. Depois, caminhou até o salão principal, onde a noite já se anunciava pelas janelas altas.
Foi então que viu ela.
Uma mulher loira atravessava os portões do castelo. Seus passos eram decididos, embora cautelosos. Os olhos, verdes e intensos, pareciam ver além da névoa, além dos muros — além da própria Mirabelle.
O castelo estremeceu. As tapeçarias ondularam, os espelhos emudeceram. Algo havia mudado.
Mirabelle permaneceu imóvel, o olhar fixo naquela figura. Ela não parecia perdida. Não parecia fraca. Havia nela uma beleza crua, intacta, que fazia Mirabelle se lembrar de algo esquecido. Algo vivo.
Ela desceu as escadas lentamente, seus passos deslizando pelo chão como os de um fantasma antigo. O castelo parecia respirar com ela. As paredes reconheciam a mudança.
Enquanto observava a mulher se aproximar, Mirabelle sentiu um aperto no peito. Um desconforto raro. Não medo. Não fome. Algo mais perigoso.
Esperança.
Ela a esperaria. Não no salão de tortura. Nem nos rituais sombrios.
Esperaria como quem aguarda a resposta de um antigo chamado — um eco perdido na eternidade.
E talvez, só talvez, naquela noite… o castelo não exigisse sangue. Talvez exigisse entrega.
Ou amor.


