A Carta

 Carlos não recebia cartas há anos. No mundo dos e-mails e mensagens instantâneas, o envelope amarelado em sua caixa de correio parecia uma relíquia do passado.

O selo estava desbotado, a caligrafia irregular. Ele virou o envelope e sentiu um calafrio ao ler o nome do remetente.

André Vasconcellos.

Carlos sentiu o estômago revirar. André estava morto há sete anos.

Com dedos trêmulos, rasgou o envelope e puxou o papel de dentro. A tinta estava um pouco borrada, como se tivesse sido escrita às pressas.

“Carlos, você está em perigo. Eles sabem sobre você. Eu tentei fugir, mas não consegui. Agora é sua vez. Não confie em ninguém. Quando escurecer, não olhe pela janela.”

Seu peito apertou. A caligrafia era realmente de André. Ele lembrava bem da escrita nervosa do amigo, cheia de letras irregulares.

O que significava aquilo? Quem “eles”?

Lembrou do funeral de André. O corpo nunca foi encontrado—apenas um carro queimado à beira da estrada, seus pertences carbonizados no banco traseiro.

Um estalo do lado de fora o fez estremecer. O sol já estava se pondo.

Carlos se aproximou da janela, hesitante. Lá fora, as sombras se estendiam no asfalto. Uma figura imóvel, de pé do outro lado da rua, olhava diretamente para sua casa.

Ele sentiu a respiração falhar.

A figura deu um passo à frente.

Na outra mão de Carlos, a carta parecia mais quente. Ele olhou para baixo e percebeu algo que não tinha notado antes.

No rodapé do papel, em letras quase invisíveis, uma última frase:

“Se você recebeu esta carta, então já é tarde demais.”

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