A Noite Esquecida

 Lucas acordou como sempre, com a sensação de estar faltando algo. Sua cabeça estava pesada, e a visão turva, como se estivesse emergindo de um pesadelo profundo, mas a memória parecia não acompanhá-lo. Ele olhou ao redor, tentando se situar. Estava em seu apartamento, uma decoração simples e um tanto desgastada, mas não era isso que o preocupava. O que o incomodava era o silêncio, um silêncio pesado que não fazia sentido.

Ele se levantou da cama e foi até o banheiro, passando a mão pelo rosto, tentando despertar completamente. Quando olhou para o espelho, algo lhe chamou atenção: um corte profundo em seu pescoço, ainda sangrando, mas curando com o tempo. Um pavor súbito o invadiu, e ele tocou o ferimento. Como aquilo havia acontecido? Ele não se lembrava de nada. Sua mente estava um vazio só, um buraco negro onde todas as lembranças pareciam desaparecer assim que ele tentava se agarrar a elas.

No entanto, ele não teve muito tempo para refletir, pois a sensação de ser observado o fez estremecer. Ele virou a cabeça e viu uma sombra na porta. Paralisou. A figura de uma mulher, distorcida pela penumbra, estava parada ali. Seus olhos estavam arregalados, fixos nele.

— Você… você não pode fugir disso — ela disse, com a voz trêmula. — Você já fez isso antes, Lucas.

Ele ficou em choque. Não havia nada sobre aquela mulher que ele reconhecesse, mas a sensação de familiaridade, de terror, era inegável. O medo se intensificou, e ele deu um passo para trás, sentindo uma pressão crescente no peito.

Ela não se moveu. O silêncio entre eles se fez mais denso, quase palpável. A mulher, então, desapareceu na escuridão. Lucas tentou chamar por ela, mas sua voz soou estranha, como se a própria realidade tivesse se distorcido ao seu redor.

Com o coração disparado, ele pegou o telefone e ligou para a polícia. Ele precisava de ajuda, precisava entender o que estava acontecendo. Mas antes que pudesse terminar a ligação, ouviu batidas fortes na porta.

— Polícia! Abra a porta!

O susto foi imediato. Ele engoliu em seco, e sem saber o que fazer, se aproximou da porta e a abriu lentamente. Dois policiais entraram, suas expressões sérias.

— Você está preso, Lucas. — Disse um dos policiais, colocando as algemas em seus pulsos.

— O que? — Ele estava atônito. — O que eu fiz? Eu não fiz nada!

Os policiais não disseram uma palavra. Apenas o conduziram até o carro, e Lucas, com uma sensação de terror crescente, foi levado para a delegacia. A cada segundo, sua mente estava mais confusa, mais em frangalhos. Ele tentava se lembrar, tentava entender o que estava acontecendo, mas a cada esforço, as peças do quebra-cabeça se desfaziam.

No departamento, ele foi forçado a sentar-se diante de uma mesa, onde um detetive o encarava.

— Você sabe o que aconteceu, Lucas? — O detetive perguntou, a voz dura.

— Não… eu não sei o que está acontecendo. Eu não fiz nada! Eu sou inocente! — Lucas implorava, sua respiração ofegante.

O detetive não respondeu de imediato. Ele apenas colocou uma fita gravada na mesa e apertou o play. A gravação começou, e a primeira imagem que apareceu foi a de Lucas, deitado em sua cama, imóvel. A cena estava nítida, mas o pior estava por vir.

Na gravação, Lucas via-se em pé, olhando fixamente para uma mulher, uma mulher que ele nunca tinha visto antes. Ele parecia… calmo, mas ao mesmo tempo, a expressão em seu rosto era algo que ele não reconhecia. Ele se aproximava dela com movimentos lentos, quase como se estivesse hipnotizado, até que o som de um objeto cortante cortando o ar ecoou pela gravação. Lucas estava com uma faca na mão e, em um movimento rápido, desferiu o golpe fatal na mulher.

O detetive pausou a gravação.

— O que você tem a dizer sobre isso, Lucas? — Ele perguntou, sua voz fria e sem emoção.

Lucas estava em choque. Ele olhou para o rosto da mulher na gravação, tentando encontrar alguma explicação. Ele não se lembrava de nada. Nada do que havia acontecido. Como isso podia ser real? Como ele poderia ter feito algo tão horrível e não se lembrar?

— Não… eu… não fiz isso! Eu não… — Lucas não conseguiu terminar a frase. O terror estava tomando conta dele, e a sensação de que sua própria mente estava se despedaçando era insuportável.

O detetive apertou o play novamente. Na gravação seguinte, ele via-se em um estado de êxtase, um sorriso cruel se formando em seu rosto enquanto ele se aproximava do corpo da mulher. Ele se abaixava e pegava algo da mesa, talvez uma joia, talvez um pedaço de tecido, e se afastava com um sorriso satisfeito. Ele estava rindo.

A gravação terminava com ele saindo do apartamento da mulher, sem pressa, como se nada tivesse acontecido. E então, tudo ficou claro.

Lucas olhou para os policiais e para o detetive, tentando encontrar algo que o salvasse, mas as palavras não saíam. Ele não entendia o que estava acontecendo, mas uma coisa ele sabia: ele não era mais a pessoa que ele acreditava ser. Ele não se lembrava de seus próprios atos, mas a evidência era clara demais. Ele havia cometido aquele assassinato, e o pior de tudo: ele não tinha nem ideia de como ou por que.

No fundo, ele sabia que a mulher não era uma vítima qualquer. Ela era uma sombra, uma pessoa que ele provavelmente já tinha matado antes. E o pior… ele sabia que poderia voltar a fazer isso.

Agora, o pior era saber que ele havia se tornado um monstro, e que sua memória apagada não poderia mais salvá-lo. Ele estava preso em um ciclo de crimes e loucura, sem saber se algum dia seria capaz de escapar dele.

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