O que um escritor coloca de si mesmo em seus personagens?

Eu gosto de pensar que nenhum personagem nasce completamente do nada.

Mesmo quando inventamos alguém que não existe, alguma coisa nossa acaba escapando pelas frestas. Pode ser uma lembrança, uma maneira de falar, um medo que nunca contamos para ninguém, uma pessoa que amamos, uma pessoa que perdemos ou até mesmo uma versão de nós que gostaríamos de ter sido.

Lembro de uma reflexão de Mário Prata sobre isso. Em um de seus livros, ao falar sobre a criação de personagens, ele parte justamente dessa ideia de que o escritor precisa investigar a alma para conseguir criar uma pessoa que pareça realmente existir. Em outra ocasião, Prata explicou que, quando dá liberdade ao personagem, ele pode até fazê-lo dizer coisas que o próprio autor jamais diria. O personagem começa a adquirir uma existência própria.

Isso me faz pensar que talvez escrever seja uma espécie de confissão disfarçada.

Eu coloco muito de mim nos meus personagens.

Às vezes, coloco meus amores.

Não necessariamente de maneira óbvia. Uma personagem pode não ter meu rosto, minha história ou sequer viver no mesmo tempo que eu, mas pode carregar a maneira como eu amei alguém. Pode ter uma lembrança que nasceu de um relacionamento meu, uma saudade que eu senti, uma conversa que ficou na minha cabeça durante anos.

Outras vezes, coloco minhas dores.

E talvez essas sejam ainda mais fáceis de esconder dentro da ficção.

Posso transformar uma tristeza em uma personagem que nunca existiu. Posso pegar uma experiência difícil e mudar o lugar, a época, o nome das pessoas, as circunstâncias. Posso transformar aquilo que aconteceu comigo em algo que aconteceu com outra pessoa.

E, de repente, aquilo deixa de ser apenas uma experiência pessoal e se transforma em literatura.

É curioso porque, quando escrevo, nem sempre percebo que estou fazendo isso. Só depois, olhando para o que produzi, consigo reconhecer alguns pedaços de mim.

Está ali uma forma de pensar.

Uma insegurança.

Uma esperança.

Uma maneira específica de sentir falta de alguém.

Uma ferida que eu achava que já tinha cicatrizado.

Talvez seja por isso que alguns personagens parecem mais vivos do que outros. Não porque tenham necessariamente uma história melhor, mas porque carregam alguma coisa que o escritor realmente conhece.

Eu posso pesquisar durante meses como uma pessoa de determinada época se vestia, falava, trabalhava ou vivia. Posso estudar documentos, ler livros de história e entender o contexto social em que aquela personagem está inserida. Mas existe uma parte que a pesquisa não consegue me dar: a experiência de sentir.

É aí que entra aquilo que é meu.

Eu empresto aos personagens aquilo que conheço por dentro.

Empresto o medo.

O amor.

A raiva.

A solidão.

A esperança.

A vontade de fugir.

A vontade de ficar.

E talvez seja justamente por isso que escrever personagens seja tão íntimo.

Quando crio alguém, não estou simplesmente inventando uma pessoa. Estou escolhendo quais partes de mim terão permissão para sobreviver naquela história.

Algumas personagens recebem meus amores.

Outras recebem minhas dores.

Algumas recebem aquilo que eu gostaria de ter vivido.

E outras recebem aquilo que eu jamais gostaria de viver novamente.

Existe ainda uma coisa que considero fascinante: o personagem pode começar carregando algo meu e, depois de algumas páginas, deixar de me obedecer.

Ele começa como criação.

Depois, começa a parecer uma pessoa.

E quando isso acontece, preciso deixá-lo tomar decisões que talvez eu não tomasse. Preciso permitir que ele erre, ame alguém que eu não amaria, perdoe quando eu não perdoaria ou seja cruel quando eu gostaria de acreditar que jamais seria.

É nesse momento que percebo que um personagem não pode ser apenas um reflexo do autor.

Ele precisa ser também um outro.

Talvez a literatura esteja justamente nesse equilíbrio: colocar uma parte de si em alguém que não é você.

Por isso, quando alguém me pergunta se existe alguma coisa minha nos meus personagens, a resposta é sim.

Existe.

Mesmo quando eu tento esconder.

Mesmo quando mudo completamente a história.

Mesmo quando digo que é apenas ficção.

Porque talvez seja impossível escrever sem deixar alguma marca de quem somos.

O escritor pode inventar mundos inteiros, criar pessoas que nunca existiram e contar acontecimentos que jamais aconteceram.

Mas, no fundo, existe sempre uma pequena parte dele caminhando por aquelas páginas.

Às vezes ela está escondida na voz de um personagem.

Às vezes em uma lembrança.

Às vezes em uma dor.

E, às vezes, em um amor que o escritor ainda não conseguiu deixar para trás.

No fim, talvez todo personagem seja um pouco de nós — mas também um pouco daquilo que gostaríamos de ser, daquilo que fomos e daquilo que tivemos medo de nos tornar.

E é justamente por isso que, quando termino uma história, sinto que não criei apenas personagens.

De alguma maneira, deixei pedaços de mim pelo caminho.

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