Eu sempre acho difícil compreender a dimensão da Primeira Guerra Mundial quando pensamos apenas nas batalhas. Entre 28 de julho de 1914 e 11 de novembro de 1918, o conflito transformou profundamente não apenas os exércitos envolvidos, mas também a economia, a saúde pública, as cidades e a vida de milhões de pessoas.
Estima-se que milhões de soldados e civis morreram durante a guerra, enquanto muitos outros ficaram feridos ou carregaram consequências físicas e psicológicas pelo resto da vida. E os impactos não terminaram quando os combates acabaram.
Na área da saúde, as péssimas condições enfrentadas pelos soldados favoreceram a disseminação de doenças e epidemias, enquanto a chamada gripe espanhola, que se espalhou pelo mundo a partir de 1918, agravou ainda mais o cenário de mortalidade.
O impacto sobre o território também foi gigantesco. Regiões da França e da Bélgica foram devastadas pelos combates, com cidades, estradas, pontes e ferrovias destruídas. Além disso, resíduos de explosivos e substâncias utilizadas durante a guerra continuaram afetando áreas agrícolas mesmo depois do fim do conflito.
E havia ainda uma consequência que atingia diretamente a vida cotidiana: o colapso econômico.
Os governos das potências envolvidas gastaram enormes quantidades de dinheiro para financiar o esforço de guerra. Para conseguir manter as operações militares, recorreram a empréstimos, aumento de impostos, títulos públicos e expansão da emissão monetária. Depois da guerra, muitos países precisaram lidar com dívidas, inflação, desemprego e dificuldades para reconstruir suas economias.
Mas quanto a Primeira Guerra Mundial realmente destruiu? Como ela afetou a saúde das populações? Por que seus efeitos econômicos continuaram durante anos? E como uma guerra encerrada em 1918 conseguiu transformar o mundo por décadas?
Neste artigo, eu quero entender as consequências da Primeira Guerra Mundial, passando pela destruição física, pelas doenças, pelas perdas humanas e pelos impactos econômicos que ajudaram a moldar o turbulento século XX.
O lado ruim
(Fonte: Evening Standard/Reprodução)
As empresas também tiveram que fechar porque os proprietários foram recrutados para guerra e alguns deles nunca mais voltaram. Aqueles que conseguiram retornar sofreram de traumas deixados pelo conflito e não puderam ser reabilitados para integrar o mercado de trabalho novamente.
Foram fechadas as diversas empresas de artilharia que prosperaram durante todo o período bélico, adicionando mais “uma pedra na sepultura econômica” desses países.
Todos esses danos alcançaram o âmbito social como uma bomba, reduzindo drasticamente os índices de natalidade, porque milhões de jovens morreram em combate. Além disso, houve aumento vertiginoso de desabrigados, migração massiva e miséria em todas as esferas sociais.
Em meio a tanta catástrofe, é inevitável não se perguntar: e se a Primeira Guerra Mundial nunca tivesse existido? Como isso teria sido refletido no futuro da humanidade?
(Fonte: Pinterest/Reprodução)
Se o arquiduque Francisco Ferdinando não tivesse sido assassinado em 28 de junho de 1914, em Sarajevo, no contexto político, a Alemanha nunca teria mandado Vladimir Lenin de volta de seu exílio na Suíça para desestabilizar a União Soviética, causando expurgos e liquidações.
O Partido Nazista de Adolf Hitler não se formaria, pelo menos não com a força que se fez, visto que a mente sádica do homem não teria sido expandida pelo sentimento de ódio em relação à rendição da Alemanha e as subsequentes explicações antissemitas que levaram a sua derrota. Nisso, certamente o fascismo italiano também não aconteceria, visto que foi a Primeira Guerra Mundial que levou Benito Mussolini a formular as próprias ambições ditatoriais.
O mesmo pode ser dito com relação ao Oriente Médio, que não teria sido palco do genocídio armênio do século XX nem visto a escultura franco-britânica das atuais fronteiras da região, resultado do declínio e da derrota do Império Otomano.
(Fonte: MacLeans/Reprodução)
Os judeus não teriam sido diminuídos e massacrados, mas sim prosperado e assumido um grande papel na história europeia — que não teria a ver com câmaras de gás e fornos.
Os Estados Unidos, do alto de seu poder, teriam permanecido mais isolado e menos conectado com o resto do mundo, além de menos tolerante em vários aspectos socioculturais.
O lado bom
(Fonte: Wikipedia/Reprodução)
Como ressalta o historiador Richard Ned Lebow, professor de teoria política internacional da King’s College London, uma consequência importante de ambas as guerras mundiais foi a ciência e a tecnologia serem aceleradas por meio do apoio governamental à pesquisa e ao desenvolvimento de armas. Em outras palavras, se hoje existe armas nucleares e computadores, foi porque houve gastos militares para todos os avanços tecnológicos.
Tudo teria levado mais tempo para acontecer, como o desenvolvimento de procedimentos médicos. As doenças fatais, os ossos quebrados, as feridas e as infecções virais só se tornaram passíveis de sobrevivência devido ao empenho em tratamentos que surgiram como consequência da guerra. O aprimoramento dos antibióticos teria atrasado também, principalmente por não existir uma pressa pela informação para que fossem efetivos.
(Fonte: Pinterest/Reprodução)
Sem um conflito global que requeresse aviões, helicópteros, foguetes e jatos, uma simples viagem de avião teria sido algo incabível durante anos. Esse reflexo alcançaria principalmente a ausência da Segunda Guerra Mundial, o marco zero de quando a tecnologia recebeu o maior incentivo da história.
No campo social, o mundo teria permanecido bem mais desigual e preconceituoso. Foi com a Primeira Guerra que as mulheres quebraram os paradigmas sociais ao se verem forçadas a assumirem escritórios e fábricas no lugar dos homens recrutados para o conflito. Foi nesse momento que o mundo começou a de fato enxergar o potencial das mulheres e lhes conceder mais direitos no pós-guerra, incluindo o direito ao voto.
O elitismo também sofreu sua derrocada justa como privilegiados da sociedade, com homens e mulheres pobres exigindo voz na formação de seu país e de um lugar na sociedade do qual também faziam parte.
(Fonte: Britannica/Reprodução)
Os Estados Unidos, por exemplo, só se transformaram no que é hoje porque muitos aspectos mudaram para melhor com a segunda metade do século XX, principalmente no quesito desenvolvimento da tolerância — apesar de controvérsias.
Como toda a linha cronológica da história, o passado é marcado por uma série de “e se?” ao longo do caminho. Porém, se Francisco Ferdinando tivesse escapado da morte em vez de nem ter sido atacado, será que a Primeira Guerra Mundial não teria acontecido de outra maneira e com consequências ainda piores?


