5 mitos a respeito da Primeira Guerra Mundial

Quando eu penso na Primeira Guerra Mundial, uma das coisas que mais me chama atenção é como esse conflito parece ter desaparecido do imaginário popular quando comparado à Segunda Guerra Mundial.

Mais de um século depois de seu início e de seu fim, a Primeira Guerra Mundial continua sendo um dos acontecimentos mais importantes da história contemporânea, mas aparece com muito menos frequência no cinema, na televisão e até nas conversas do cotidiano.

E isso tem uma consequência: alguns mitos sobre a guerra acabam sobrevivendo por gerações.

Parte dessas ideias equivocadas surge justamente porque muitas pessoas conhecem o conflito apenas de maneira superficial. Quando pensamos em 1914, é comum imaginar uma guerra travada exclusivamente nas trincheiras europeias, com soldados enfrentando o inimigo em condições praticamente idênticas durante quatro anos.

A realidade, porém, foi muito mais complexa.

A guerra envolveu diferentes continentes, novas tecnologias militares, enormes mudanças sociais e estratégias que se transformaram ao longo do conflito. Além disso, algumas histórias populares foram exageradas ou simplificadas com o passar do tempo.

Mas o que realmente aconteceu nas trincheiras? A Primeira Guerra Mundial foi mesmo uma guerra exclusivamente europeia? Os soldados passavam quatro anos inteiros dentro das trincheiras? As armas modernas foram responsáveis por todas as mortes? E quais outras ideias sobre o conflito não correspondem exatamente aos fatos históricos?

Neste artigo, eu quero investigar alguns dos maiores mitos sobre a Primeira Guerra Mundial, comparando essas histórias populares com o que sabemos sobre o conflito e tentando separar aquilo que realmente aconteceu daquilo que foi sendo construído pelo imaginário coletivo ao longo dos últimos cem anos.

1. O naufrágio do Lusitania não levou os Estados Unidos à guerra

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

O Lusitania foi um importante navio de passageiros britânico, que afundou em 7 de maio de 1915, depois de ser alvejado por um submarino alemão, quando estava em viagem para Nova Iorque. Foi uma tragédia que muita gente acreditou que aconteceria, já que navios de passageiros partiam dos Estados Unidos com suprimentos para a Europa.

Os militares alemães viviam de olho nesses navios, para interceptá-los. Contudo, não foi o naufrágio do Lusitania o responsável por retirar os norte-americanos da posição de neutralidade (com a qual ganhavam muito dinheiro, diga-se).

Os EUA só entraram na Primeira Guerra Mundial em abril de 1917, muito pelo receio de que o México entrasse no conflito ao lado dos alemães. Eles haviam feito uma promessa de que territórios tomados pelos EUA seriam devolvidos caso os mexicanos lutassem ao lado alemão.

2. Britânicos não apoiavam a guerra

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Muitas fotos que temos acesso sobre o conflito, especialmente em solo britânico, mostram pessoas sorridentes, algumas com homens e mulheres posados, rindo. Porém, ao contrário do que possa parecer, a população britânica não reagiu animosamente ao conflito.

Ainda que aceitassem o fato de que o país estivesse em guerra, eles não eram entusiastas do conflito, inclusive porque sabiam dos efeitos a médio e longo prazo da participação na batalha. Historiadores creditam esse mito à divulgação do acervo de fotos do chanceler David Lloyd George, que descreveu o cenário como de um “entusiasmo selvagem”.

3. Primeira Guerra Mundial não foi a pior batalha da história

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

O senso comum por vezes perpetua a ideia de que a Primeira Guerra Mundial foi o conflito mais desagradável e arrasador já visto na história. Ainda que proporcionalmente os estragos tenham sido grandes, é impreciso afirmar que a guerra tenha sido a pior e mais devastadora.

Acontece que se tratava de uma geração de cidadãos e militares que não tinham vivenciado o terror de uma guerra de modo tão próximo. Foi especialmente a literatura, por meio de poetas e romancistas, que ajudou a eternizar esse mito. Criou-se no imaginário coletivo essa terrível imagem daquele conflito como o mais tenebroso, o que não é verdade.

4. Conflito não envolveu apenas a Europa e os Estados Unidos

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Uma pesquisa mais rasa, seja de documentos ou de fotos, pode dar a impressão de que a Primeira Guerra Mundial envolveu apenas nações europeias e os Estados Unidos. Na realidade, no início do século XX, muitos países da África e da Ásia seguiam sob o controle de potências da Europa, como Reino Unido, França, Alemanha e Portugal.

Quando a guerra foi deflagrada, militares e muitos cidadãos dessas nações ocupadas foram recrutados para combaterem nos campos da Europa. Estimativas de historiadores apontam que cerca de 2 milhões de africanos tenham guerreado, sendo que pelo menos 200 mil faleceram.

5. Muitos civis morreram em decorrência da guerra – direta e indiretamente

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Outra balela é a que afirma que o primeiro conflito de proporções mundiais resultou em poucas mortes de civis. Historiadores explicam que esse mito se perpetuou porque a vida de soldados era mais valorizada, logo, suas mortes representavam um grande abalo.

Faltam dados precisos sobre os números, mas a estimativa é que 500 mil alemães tenham morrido de fome em virtude da guerra; cerca de 1 milhão de armênios tiveram destino semelhante.

Durante a invasão alemã à Bélgica, o exército fuzilou 6.500 civis, incluindo mulheres e crianças. Nenhum lado de um conflito possui só heróis ou bandidos, mas a morte de civis é sempre a morte de inocentes.

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