
Desde que se lembrava, Marcos tinha medo da noite. Não era de monstros ou de coisas que se escondiam nas sombras. Era algo pior. Algo que ele não conseguia entender, mas que sempre esteve lá, esperando por ele. Cada vez que ele fechava os olhos, o pesadelo começava.
Na primeira vez, tudo parecia normal. Marcos estava deitado em sua cama, o cobertor até o pescoço, quando, de repente, algo estranho aconteceu. As sombras na parede começaram a se mover. Não havia vento, não havia razão, mas elas se contorciam como se estivessem vivas. Foi quando ele ouviu uma voz baixa, sussurrante, vindo de algum lugar da escuridão.
— Marcos… eu estou aqui.
Ele olhou para o canto da sala, onde a sombra era mais densa. O que ele viu não era uma forma humana, mas uma silhueta. Apenas um contorno sombrio, sem rosto, sem olhos. Mas ele sentiu. Sentiu o olhar fixo sobre ele, penetrante. Algo lhe dizia que a sombra sabia exatamente onde ele estava.
Na manhã seguinte, Marcos acordou suado, com o coração acelerado. Ele tentou esquecer, mas algo dentro dele não o deixava. O medo estava lá, à espreita, esperando pela próxima noite.
A segunda noite foi pior. A sombra estava mais próxima agora. Ela se arrastava pelas paredes, lentamente, como se estivesse se preparando para atacá-lo. Marcos não conseguiu dormir. Seus olhos se mantiveram abertos, observando cada movimento, cada ruído. Mas tudo o que ele ouvia era a respiração pesada vindo da escuridão.
Quando finalmente fechou os olhos, um sussurro gelado percorreu sua espinha:
— Eu estou chegando, Marcos. Só mais um pouco e vou estar com você.
O coração de Marcos quase parou. Ele tentou se mover, mas seu corpo estava paralisado. O medo o consumia, e ele não conseguia fazer nada.
Na manhã seguinte, ele estava exausto, mas não ousou contar a ninguém. Eles não acreditariam nele. Quem acreditaria em um pesadelo tão real?
Mas a cada noite, a figura na escuridão ficava mais nítida. Mais real. O corpo não era mais apenas uma sombra. Agora, ele tinha forma, uma figura esquelética, com braços longos e retorcidos, arrastando-se lentamente pelo chão. Sua cabeça estava encoberta por uma capa negra, mas os olhos… aqueles olhos. Negros e vazios, como um buraco sem fundo, fitando-o com uma fome insaciável.
E as palavras? As palavras ficaram mais claras, mais fortes, cada vez mais próximas:
— Marcos, você não vai escapar. Eu sou o que você mais teme. E você não pode fugir de mim.
Na terceira noite, Marcos não conseguiu resistir. Ele gritou, mas sua voz não saia. Sua garganta estava apertada, como se o ar tivesse sido retirado. A criatura estava no canto do quarto, observando-o com uma paciência assustadora. O ambiente estava gelado, e ele sentia um peso enorme em seu peito, como se o próprio ar tivesse se tornado denso demais para respirar.
A criatura, finalmente, falou com uma voz que era ao mesmo tempo suave e horrível.
— Você me conhece, Marcos. Não tente fugir. Eu sou o que você teme, e sempre estive aqui. Sempre estive observando.
Quando a figura começou a se aproximar de sua cama, ele tentou gritar mais uma vez, mas sua voz não saiu. A criatura se aproximou lentamente, seus olhos penetrando no coração de Marcos. E, então, a realidade parecia se distorcer. Tudo ao redor dele começou a tremer, a escurecer. Era como se ele estivesse sendo puxado para outro lugar, um lugar onde não havia escapatória. Ele sentia a mão fria da criatura alcançar sua garganta, apertando, como se fosse arrancar sua alma.
Naquela noite, a criança não acordou. O que se viu pela manhã não era mais Marcos, mas um corpo sem vida, pálido, com os olhos abertos e fixos, como se tivesse visto algo que ninguém deveria ver.
A casa estava em silêncio. Mas na escuridão, a sombra continuava. E quando a noite chegava, ela sussurrava:
— Agora, Marcos é meu. E você será o próximo.

