O Visitante do Futuro

A cidade de La Verta, com suas ruas de terra batida e casas simples de madeira, parecia tranquila. Seu único ponto de movimentação era o mercado local, onde os agricultores e moradores se encontravam para trocar produtos e fofocar sobre os acontecimentos da pequena comunidade. O tempo passava lentamente ali, como se o mundo fora da cidade não existisse.

Mas, em uma manhã fria de outono, tudo mudou.

Um homem apareceu no centro da cidade. Ele não era um dos habitantes. Sua aparência era estranha, com roupas de um tecido que ninguém reconhecia, e seu semblante estava marcado por uma expressão de cansaço profundo. Seus olhos estavam tão escuros que pareciam absorver a luz ao redor, como se fossem buracos negros, e seus movimentos eram lentos, calculados. Ele carregava uma mala velha, desgastada pelo tempo.

A princípio, as pessoas pensaram que ele fosse apenas um viajante perdido, mas a maneira como ele falava logo revelou algo perturbador. Ao se aproximar do café da esquina, onde os homens da cidade se reuniam, ele começou a conversar com um dos habitantes mais antigos, um homem chamado Vicente, que se orgulhava de saber tudo sobre os forasteiros.

“Eu sou de um futuro distante”, disse o estranho, sua voz suave, mas carregada de uma melancolia profunda. “Onde os mortos governam. A Terra já não é mais o que vocês conhecem. Tudo o que vocês temem, tudo o que vocês evitam, está prestes a se tornar realidade.”

Vicente olhou desconfiado, achando que o homem estava delirando, mas o estranho continuou, como se tivesse uma urgência em suas palavras.

“Vocês estão prestes a ser engolidos por algo que ninguém entende. Eu vi os mortos tomarem os corpos dos vivos, eu vi os cemitérios se tornarem cidades, eu vi o domínio deles sobre o mundo que um dia foi dos humanos. Eu vi a Terra se tornar um cemitério a céu aberto.”

A voz do estranho tinha algo de inescapável. Vicente tentou ignorar, mas não conseguiu. Ele sentia uma estranha sensação de que aquelas palavras faziam sentido, de que aquilo não era uma fantasia.

“Como assim? O que você quer dizer com isso?” Vicente perguntou, já sem paciência.

O homem respirou profundamente antes de responder. “A morte não é mais o fim. Em meu tempo, os mortos governam, controlam os vivos. Eles caminham entre nós, disfarçados, mas em breve, não haverá mais como diferenciá-los. A Terra foi dividida entre os mortos e os vivos, e os mortos… eles não querem mais descansar.”

O estranho pausou, e seus olhos escuros pareciam analisar Vicente profundamente, como se quisesse se certificar de que ele acreditava em suas palavras.

“Eu vim de uma linha do tempo que já está prestes a ser interrompida. Eu sei que, em breve, essa cidade, como todas as outras, será tomada. O que vejo agora não é uma profecia, mas uma inevitabilidade. O futuro que eu conheço será o futuro que vocês vão viver.”

Aquelas palavras começaram a se espalhar como um veneno pela cidade. Os moradores começaram a se perguntar quem era aquele homem. Como ele sabia tanto sobre os mortos? Como ele sabia de suas cidades, suas leis, e seus governantes?

O estranho começou a fazer mais e mais visitas às casas e estabelecimentos da cidade. Ele falava com todos, mas suas palavras tinham sempre o mesmo tom de advertência: algo ruim estava por vir. As pessoas começaram a sentir um calafrio crescente, uma sensação de que o tempo estava se distorcendo, e os próprios mortos pareciam começar a tomar formas mais ameaçadoras em seus pesadelos.

Na noite seguinte, um estranho silêncio tomou conta da cidade. Todos trancaram suas portas e janelas, temendo o que estava por vir. O estranho desapareceu, como se nunca tivesse existido. Mas algo no ar havia mudado.

À medida que os dias passavam, coisas inexplicáveis começaram a acontecer. Animais mortos começaram a aparecer nas cercanias, seus olhos vidrados fixando os moradores com uma frieza indescritível. As luzes nas casas começaram a falhar, e um vento gélido passou a soprar pelas ruas à noite, sempre à mesma hora, como se algo estivesse esperando para ser liberado.

E então, uma noite, quando os ventos uivavam com mais força, os primeiros mortos da cidade começaram a sair de seus túmulos. Lentamente, de maneira quase silenciosa, os corpos se ergueram, um a um, como se a terra não fosse mais um obstáculo. Seus rostos estavam desfigurados, com olhos vazios e uma fome que não poderia ser saciada.

E no centro da cidade, onde o estranho havia aparecido pela primeira vez, as pessoas começaram a notar algo ainda mais perturbador. Aqueles que haviam escutado suas palavras, que tinham acreditado nele, agora se viam observados. Eles sentiam uma presença constante, algo que os espreitava das sombras, esperando pelo momento em que todos os vivos se tornariam mortos.

O estranho havia dito a verdade. E a cidade de La Verta, antes tão tranquila, agora estava no limiar de uma nova era, onde os mortos governariam, como ele previu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *